O Farol – Eins tuth Noth

 
 
 

 

       EINS TUTH NOTH

         

 

 

       Acordou, exausto e atormentado pelo sonho recorrente que lhe surgia em momentos de extremo conflito interior, o sonho cujo protagonista era o próprio pai que se erguia do túmulo para agarrar uma criança que acolhia no seu manto e transportava consigo para baixo.           

      Desistira de tentar compreender o pesadelo, sempre achara que se tratava de uma premonição pois, no tempo em que lhe aconteceu pela primeira vez, houve uma morte a seguir, e fazia todo o sentido, para a sua consciência delirante, que o pai, já morto, viesse recolher o filho. Mas, passados tantos anos, nem sabia se devia dar crédito ao valor premonitório do sonho! É certo que o irmão tinha morrido, dias depois do pesadelo nítido, é certo que se sentiu perturbado com a relação quase directa entre o sonho e a realidade… mas naquela exacta noite, que premonição poderia advir da imagem recorrente?

       Não tentou dormir de novo, decidiu levantar-se e foi até à janela. A rua, em baixo, estava deserta e uma claridade rósea anunciava o dia em conflito com a luz amarelada dos candeeiros, vultos de árvores, sombras de edifícios, um banco de madeira brilhando ali ao lado…estava fresco, demasiado fresco para a estação e W.N. entrou no quarto, no auge de um arrepio que tanto poderia ser de frio como de temor.

       Recordou o estranho encontro com a mulher ruiva, estremeceu quando evocou a linha rubra ao longo do pulso e o texto lamentável escrito com sangue…nunca pensara que alguém fosse capaz de levar à letra o seu mandamento! Não se preocupava com o sentido literal das metáforas, o seu instinto lírico dizia-lhe que as palavras são a matéria por excelência da beleza e do sonho. E no entanto, ele, o profeta da verdade, o paladino do rigor existencial, não era capaz de admitir que o desvirtuassem daquele modo grosseiro: como ousara aquela mulher cortar as veias e escrever realmente com o sangue? Onde poderia ela querer chegar nos limites de semelhante acto, tão desvairado, quanto inútil? Ainda por cima tinha-lhe falado no chicote!

       Atravessou o quarto, sentindo o ranger da madeira sob os seus pés como uma verruma a perfurar-lhe o pensamento, foi até à mesa-de-cabeceira abriu a única gaveta e retirou uma fotografia emoldurada que contemplou. Lá estava a carroça semi-arruinada, os dois homens a fingir que a puxavam e, triunfante, com o chicote e as rédeas na mão, a mulher castigadora! Lá estava o trio, o domínio da mulher sobre os dois homens, a presença absoluta da valquíria, da feiticeira! E ele, no jogo, submetido, ali, como se fosse animal de carga!

       Irritado, voltou a ocultar o retrato na gaveta. Que sabia aquela mulher – a sua única leitora – para considerar que quem transporta o chicote é o homem? Porque acharia ela que a frase do livro pretendia significar o domínio do masculino?

       Uma espécie de sorriso nasceu-lhe por detrás do farto bigode, um sorriso de desencanto ou de desdém, um sorriso magoado e tímido…«Vai para junto das mulheres, não te esqueças do chicote!» O chicote delas, é claro, um chicote que pode muito bem ser feito de beleza e de sedução, um chicote de olhos aveludados e promessas intelectuais, esse é o chicote, esse é o símbolo da mulher perfeita, emancipada e gloriosa que deseja ter um séquito de carroceiros ao seu dispor!

       Percebeu que a manhã chegara definitivamente, o sol abria-se no rectângulo da janela.

       W.N. tomou a decisão de se preparar para sair, talvez desse um passeio a pé, gostava dos pensamentos que lhe ocorriam enquanto caminhava, de preferência em jejum, com as células revigoradas e o cérebro actuante. Saiu do pequeno quarto do hotel, onde ficava sempre que vinha a V., hotel modesto, quase pobre, mas familiar, onde todos sabiam que ele era um solitário, se bem que afectuoso e delicado, e ninguém o perturbava com olhares ou indiscrições, desceu as escadas cobertas com uma passadeira esgarçada e abriu a porta de mansinho.

       A cidade começava a despertar mas não era ainda o bulício intenso dos transeuntes ou a corrente insidiosa do tráfego. Àquela hora os raros caminhantes tinham objectivos precisos e deslocavam-se em silêncio, distribuindo jornais, deixando garrafas de leite nos portais ou movendo-se para as gares com determinação.

       W.N. respirou fundo e um alívio inusitado limpou-lhe os pulmões e aclarou-lhe as ideias, «Eins tuth Noth, «Só uma coisa é necessária». E a máxima gravada na memória ressurgiu dos arcanos da infância e martelou-lhe o cérebro por instantes, «Só uma coisa é necessária», e, naquela hora em que caminhava sem rumo definido pelas ruas quase desertas, percebeu que muito brevemente descobriria o Sentido e que o chicote e a escrita com sangue não passariam de metáforas vazias.  

Uma resposta to “O Farol – Eins tuth Noth”

  1. Pedro Says:

    Eins tuth noth. Chega o um. Só o um ou a uma é necessário.O que vai o pacato e discreto escritor considerar como a pérola da existência, como aquilo que vale tudo?No seu erguer no centro da Europa, no seu viver discreto por entre tráfego e pacatez, que valor conseguirá tornar-se no seu nec plus ultra?No séc. XXI da globalização pensar-seá na verdade, no amor, na liberdade.Para uns será a demanda, mais do que a obtenção ou a posse. Para outros o contrário. Cada ser a cada momento valoriza os seus objectivos e necessidades e hierarquiza-os em constantes adaptações. Mas conseguir escolher o um necessário não é fácil. Alguns dirão com razão a básica saúde, outros o trabalho.Para uns será a criatividade, a entrega, o empenhamento, a dedicação.A muitos bastar-lhes-á o amor, para outros já a busca da unidade ou da Divindade Mas talvez o sangue vivo, confiante, amoroso e esperançoso, seja o mais necessário.

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