O Farol – Fugitivus Errans

 

 

Caspar David Friedrich’s Wanderer Above the Mist [1818]

 

 FUGITIVUS ERRANS

 

     Foi então que começou a sentir-se perdido na cidade. Percebeu, à medida que caminhava – ele dava sempre passadas largas e rápidas – que a cidade nascia para o ritmo frenético do dia, os passeios regurgitavam de gente apressada, as ruas estavam pejadas de veículos e o vozear da multidão martelava-lhe as têmporas doridas. Sentiu-se completamente desorientado, e aquele local onde bruscamente desaguou podia ser nas imediações do hotel ou do outro lado da cidade, a própria cidade poderia ser um pântano ou um deserto ou um abismo, soube que em breve estaria tonto, que talvez desmaiasse…

       Quando recobrou a consciência estava estendido num sofá cor de mel e, abrindo bem os olhos, reconheceu a cabeleira fulva e os traços delicados da sua leitora!

       Tentou erguer-se, confundido e pouco à vontade, mas ela pôs-lhe a mão na fronte e fez com que ele se aquietasse «Fique, descanse um pouco, não se preocupe em perceber nada!»

       «Perceber, sim, perceber», murmurou para si próprio, «como se perceber  fosse tudo! Como se aquela que lhe afagava a cabeça esvaída – a sua leitora, a que escrevia literalmente com sangue – tivesse a menor noção do tumulto interior que o revolvia!» Resolveu obedecer-lhe, deixou-se embalar uns momentos na ligeira ondulação que os dedos finos deixavam na orla da sua pele e, aos poucos, a lucidez regressou, inteira. «Estou aqui, porquê? Não me lembro de ter subido as escadas, estou certo que não toquei a campainha…»

       Abriu os olhos, passou os dedos pelos cabelos revoltos e sentou-se no sofá, encarando a sua única leitora de modo decidido, «Explique-me como vim aqui ter!», «Acredito que não saiba…encontrei-o junto à minha porta, tinha o olhar perdido e tacteava a fechadura. Fiz com que entrasse, amparei-o até ao sofá e, quase instantaneamente, adormeceu! Foi assim!», «Peço que me perdoe, saí do meu hotel perfeitamente bem, ainda era muito cedo… mas depois…sabe…o tumulto da rua, o vozear das pessoas…penso que vagueei numa espécie de semi-consciência e se cheguei até aqui…» Calou-se, intrigado, mas A.S. não lhe permitiu o alheamento, «Chegou, efectivamente chegou e, se me é lícito interpretar o que acaba de contar-me, veio porque tinha a intenção de o fazer, mesmo que não conscientemente…decerto sentiu que eu poderia ser um porto de abrigo, uma directriz para dissolver a sua desorientação.»

       W.N. olhou-a espantado, nunca mulher alguma havia falado com ele daquela maneira, como se soubesse …como se pudesse ter sondado os seus abismos até ao fundo. «Sabe», falou, por fim, serenamente, «a minha vida está por um fio, nem sei como resisti tanto, supus que o meu destino seria retirar-me do mundo por volta dos trinta anos…como sucedeu com o meu pai de quem herdei o temperamento nevrótico. Apesar disso fui ressuscitando, viajei de crise em crise e de cidade em cidade, tornei-me fugitivus errans , soube que devo muitas palavras à humanidade e que talvez um dia me leiam e os homens se descubram! Por causa disso resisti tanto, ultrapassando-me incessantemente, subindo os degraus da existência sobre a minha própria cabeça…» A.S. interrompeu-o. «Bem sei, escreveu isso no livro…» W.N. fez um gesto com a mão e prosseguiu, «Mas agora creio que o final se avizinha, não tenho a certeza exacta de qual será esse final…a demência, a morte…qualquer um destes destinos aguarda-me e pode acontecer numa rua, no meio do campo, na montanha…poderia ter sido hoje mesmo!»

       Enquanto assim pronunciava este discurso premonitório, eivado de fatalismo, o olhar iluminara-se-lhe e chegou mesmo a erguer-se, levantando o braço.

       «Sei o que me espera, sei onde pertenço, passei silencioso por entre os homens do meu tempo e, pior ainda, ouvi-lhes o silêncio! Quando deixei de o suportar, quando os amigos se refugiaram de mim, quando eu próprio me refugiei deles, fui em busca dos meus leitores, não dos que já conhecia e me condenaram ao solipsismo, mas dos outros, dos que vão às livrarias…encontrei um único comprador, um só! E o livreiro disse-me que o homem vivia num farol…escreveu-me a morada num papel e então…com toda esta mística do farol, do isolamento, da imensidão marítima…segui as instruções e cheguei até aqui! Não diga nada, sei bem que não é um faroleiro e que esta casa não é um farol…julgo que fui vítima de uma cilada…mas o certo é que leu o meu livro, não é verdade?» A.S. suspirou, «Não lho mostrei já? Não tentei literalizar as suas metáforas? Bem sei que não é isso que espera de um leitor…percebo inteiramente que o espírito de que fala quando o equipara ao sangue (que eu derramei efectivamente) é o sublime entendimento que perpassa entre almas-irmãs…»

       W.N. dera uns passos na sala e olhava pela janela a cidade grande, mas longínqua. «Vê estas ruas, estas casas, esta gente? Estão ali, bem sei, mas desta altura, inscritas no horizonte, tão abaixo do céu, é como se fossem um aglomerado qualquer de matéria que pode bem ser mar ou deserto…e então, talvez a sua casa seja mesmo um farol, talvez eu tenha vindo encontrar realmente o meu faroleiro-leitor! Sabe o que significa farol, literalmente, como tanto gosta? É o nome de uma ilha – Faros – defronte de Alexandria, onde Ptolomeu Filadélfio mandou construir um instrumento de iluminação…o nome da ilha tornou-se o nome do luzeiro que orienta a navegação! Eu prefiro a metáfora porque apenas ela me permite ver esta casa como um farol e consentir que a sua habitante seja…faroleira!»

       Surpreendida com a tirada eloquente de um homem que minutos antes não dava acordo de si, A.S. olhava-o, com  êxtase. W.N. captou a luz jubilosa que irradiava do rosto dela e retirou-se da janela, «Não, por favor, nada tenho de admirável…não me contemple assim…»   

    «Espere! As suas palavras são de um professor, de um mestre…engano-me?», «Sim, engana-se, há muitos anos que renunciei à cátedra, desisti de ensinar, soube que a minha voz estava nos antípodas do tempo dos outros e que nada podia fazer junto de qualquer discípulo…aliás, eles próprios, foram desertando das minhas aulas para atmosferas mais ligeiras…e tornei-me errante…»

       A.S. deu uns passos na direcção do seu visitante, «Deixe-me perguntar-lhe o trivial: já comeu? Desculpe se o arrasto para a miséria comezinha da sobrevivência…mas não será o jejum a causa de um humor tão pessimista?» E, sem lhe dar tempo a responder, virou as costas e saiu do aposento.

Uma resposta to “O Farol – Fugitivus Errans”

  1. Pedro Says:

    A emoção penetra aos poucos na solidão do homem errante,primeiro no acolhimento salvífico da faroleira e depois no reconhecimento afectivo e intelectual que ela lhe transmite. Os pesadelos premonitórios e da morte, as dominações nas relações, o sangue que jorra sobre certas pessoas ou que pode levar ao suicídio, são agora substítuídos por uma aproximação quase crística: beber do meu sangue, escrever com o meu sangue, com o entendimento que une os seres, isto é, o amor, o Logos dos gregos e dos neo-platónicos. A tragédia dos que escrevem mas pouco eco recebem, que tantso seres estrangulou ou pelo menos fez desistir de caminhos literários, parece ser aqui resolvido: u só leitor basta. Um só alma-irmã, basta.Será pedir demais?Não conseguiremos ultrapassar as famílias carnais e construirmos algumas espirituais, nutridas já não pelo mero sangue comum paternal mas do sangue crístico ou ungido, isto é, o das afinidades electivas, do entendimento que une as almas irmãs?Um belo desafio o que a faroleira nos lança: reconheceermos, descobrirmos a nossa família, que por vezes só a arte perdida da reminiscência nos poderia fazer intuir. Mas que de repente, como um vento inesperado que abre a janela, entra pela nossa casa e dá-nos sopro, vida, animando o sangue, dando asas ao entendimento, rumo à, ou na, Unidade

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