O Farol – Ein Buch für Alle und Keinem

 

           

 

 

Ein Buch für Alle und Keinem

 

 

        Durante algum tempo, enquanto atravessavam a cidade, quente, apesar da brisa outonal, vibrante, na insensata corrida da multidão e dos veículos, não pronunciaram palavra alguma e os dois, perdidos no caos humano, tornaram-se figuras indistintas ou partículas ou átomos de um aglomerado inespecífico. A.S., contudo, conhecedora do ziguezaguear das ruas antigas de V., foi desenhando argutamente o percurso, vencendo o andamento tímido e sincopado de W. N. que, numa animação progressiva, soltou os membros e ergueu o rosto até alinhar os seus passos pelos dela.

            A certa altura desembocaram num parque quase deserto e aos poucos o parque citadino deu lugar a um bosque e o bosque à floresta. «Quem havia de dizer que a floresta opressiva dos homens daria lugar a este oásis?». W.N. falou alto e a voz, treinada no discurso, soou nítida e bem articulada. «Não lhe disse isso mesmo? As cidades não podem subsistir sem este contraponto de oxigénio e eu própria não seria capaz de residir em V. se não me acontecesse sonhar com estes ermos… Nem preciso de vir cá muitas vezes, basta-me a evocação para me sentir livre!» W.N. suspirou, «Tem sorte! Infelizmente, a mim, a evocação não chega, sou fisiologicamente incapaz de viver sob certos céus, ou neves, ou sóis…então só me resta errar por aqui e por ali em busca do meu lugar…que não tenho! Curiosamente, aqui, experimento uma paz que já não sentia há muito!». Dizendo isto olhou para a sua companheira que avançara um pouco e, numa pequena clareira entre árvores altas, desdobrara uma manta. «Venha cá! Trouxe um farnel, lembre-se que uma certa rigidez nos horários das refeições, um certo ritmo ou rotina, como quiser, é fisiologicamente importante!», «Mas como, como arranjou tudo isso? Não dei conta de nada…», «Pois não! Enquanto olhava os longes, procurando ver o destino da sua águia, eu tive tempo de enfiar na bolsa algumas coisas…tudo simples, como pode ver, tudo adequado a estômagos recalcitrantes!»

            Hesitando em sentar-se, W.N. olhava à sua volta. Assim, descontraído e sereno, parecia rejuvenescido, os olhos brilhavam e a própria estatura se elevara; A.S. atónita, observava a transfiguração do homem, acossado havia algumas horas, o semi-moribundo que apanhara à sua porta, sentia uma intimidade extraordinária com aquele escritor vindo nem ela sabia de onde, cujas palavras incendiárias lhe haviam feito cometer insanidades e percebeu que algo nela ganhara substância. Sentada na manta, com as pernas cruzadas à oriental, e os cabelos ondulando à volta do rosto infantil, apeteceu-lhe cantar, mas em vez disso soltou um assobio. «Sente-se aqui, venha, permita-se usufruir uma hora de prazer!»

            Sim, de prazer, pensou ele, prazer que pagarei amargamente daqui a pouco, prazer que trará o veneno de abandono, esse azorrague de mim para mim mesmo…de qualquer modo…porque não?

            Com elegância cruzou as pernas, ainda de pé, e deixou-se cair na manta púrpura. «Já imaginou o que sentiria caso esta floresta fosse também a habitação da serpente? Não, não estremeça, não quero assustá-la…mas só falta mesmo ela para compor o quadro deste dia!», «Não tenho medo de serpentes, sei que desde que saibamos lidar com a natureza, nada nela pode ser-nos prejudicial…mas não tenho  a certeza de estar preparada para um  tal encontro!», «Tem razão, é necessário estarmos prontos, precisamos de ver o longínquo e esquecermos o próximo e amarmos o longínquo mais do que o próximo…ensino-lhe o amor do longínquo! Pense na águia: foi a única vez que ela poisou na sua janela, não é verdade? Mais do que qualquer um dos homens de agora, estes por quem passo e me ignoram, ela sabe que somos feitos do mesmo material, moldados no mesmo barro! Por isso me escutou e por isso voou quando eu a persuadi disso!» Enquanto falava, W. N. entretinha-se a passar uma maçã vermelha de uma mão para a outra, até que deu uma dentada e cerrou os olhos em inesperado prazer. «Mas…agora me lembro…queria perguntar-lho há muito: como decidiu comprar o meu livro quando entrou na livraria? Entre tantos títulos porque escolheu exactamente o meu?». A.S. riu-se, «Sempre a omnipotência do eu a querer sugar todo o espaço! Estamos aqui, nada nos perturba o isolamento, deixámos para trás as grutas dos outros homens e já quer regressar…avanço consigo e não hesita em puxar-me para trás…quando fala em egoísmo, quando o defende proferindo sentenças em que apenas pretende encontrar-se a si mesmo…ah, é então só por isso que continua comigo?», «Mas….o que pensava? Esquece-se que fui procurá-la apenas porque era a minha única leitora? Esquece-se de que saí do meu tugúrio para encontrar face a face os meus leitores e foi consigo que deparei? O egoísmo é outra coisa!», «Pois bem, eu digo-lhe, veremos se quer conhecer a sua única leitora, veremos se o meu critério de selecção de livros satisfaz o seu orgulho». Ignorando o gesto de repúdio de W. N. que continuava saboreando a maçã, com um leve ruído húmido, A.S. prosseguiu, «Fui à livraria por tédio, se quer saber! Tinha andado às voltas na cidade, tudo me parecia desencantado e quando dei por mim estava a percorrer com os olhos os títulos em destaque da vitrina. Entrei, folheei alguns mas sabia que não iria comprar nada daquilo, ali exposto para atrair a plebe, detestei o toque das capas, como que envernizadas, odiei o brilho das letras, em relevo e fluorescentes, das inscrições com que os autores apelavam despudoradamente à venda! Alguns tinham cintas de cartão onde se lia: “Best seller em 14 países” ou “Adaptado ao cinema” e outras ninharias…então fui procurar nos fundos, nas prateleiras enigmáticas e modestas, tirei um e outro e subitamente um livro pouco volumoso caiu-me aos pés, ficou ali, aberto, como se estivesse a chamar-me! Apanhei-o e logo  encontrei a sua sentença, aquela de que tanto falámos já…soube que estava a ser tocada por uma espécie de nova melodia, nada nas palavras que li podia comparar-se à multidão das histórias que ornavam a montra e entupiam a passagem. Quanto ao  título… julgo que não o percebi: soou-me estranho o tom evangélico da frase, não gostei do cunho de religiosidade que me pareceu atravessar aquelas três palavras…foi o subtítulo que me convenceu a trazê-lo! Ein Buch für Alle und Keinem, esse, sim, foi o verdadeiro motor da minha compra! Como podia eu resistir à possibilidade de saber, por fim, se eu era “Todos” ou se era “Ninguém”? Como podia deixar ali um livro que me prometia entender a que talhão da humanidade pertenço? Foi assim que decidi comprar a sua obra, mesmo quando o livreiro me olhou compungido querendo dissuadir-me…já lhe contei…aliás, quanto mais ele me afastava do livro, mais a minha necessidade de o trazer era premente. Oiça-me bem: o livro falou comigo, o livro quis que eu o lesse! Ao que parece foi apenas o livro a manifestar uma tal vontade: também o seu autor ousa proferir que eu não o devia ler…»

            Perturbada, A.S. levantou-se e caminhou até uma árvore ao tronco da qual encostou a cabeça, subiu um pouco a manga da camisola do braço esquerdo e afagou cuidadosamente a cicatriz violácea. «Foi o livro que me mandou escrever com o sangue, sabe? Foi ele que encaminhou os meus gestos…»

            W.N. não se moveu, soube que não devia ter perguntado nada, entendeu que havia dramas e revoltas por detrás daquele corpo franzino, entreviu a cabeça escondida e soube que a cabeleira fulva era um albergue de segredos e dores. Resistiu à piedade que sentia nascer, reprimiu o início de ternura e só conseguiu dizer, «Venha, coma comigo, daqui a pouco os pássaros e as formigas darão conta da nossa refeição!».

            Não falaram mais até terminarem, nem sequer quando o sol entreabriu a cortina densa das árvores e lhes iluminou os rostos pálidos. Numa espécie de acordo tácito perceberam, cada um a seu modo, a existência de um nicho secreto muito frágil, prestes a romper-se e a abrir uma avalanche prodigiosa que os levaria perigosamente por caminhos que nenhum desejava percorrer naquele instante.

            Anoitecia já quando saíram da clareira no âmago da floresta. W.N. ouviu um rumor discreto, tão íntimo que parecia dimanar de si próprio, olhou para trás e viu a cabeça da serpente erguida, com os olhos faiscando na penumbra e o corpo enlaçando o tronco da árvore no centro do sítio onde há pouco haviam descansado. Sorriu francamente, percebeu que o dia ganhara, no seu todo, um significado profundo que viria tarde ou cedo a desvelar: sem pensar no que fazia agarrou o braço de A.S. que se lhe abandonou, cúmplice, e, num enfeitiçamento até ao momento desconhecido para qualquer um deles, regressaram à cidade.

Uma resposta to “O Farol – Ein Buch für Alle und Keinem”

  1. Pedro Says:

    A árvore como habitação dos deuses desde a antiguidade foi reconhecida. unindo o céu e a terra e sob ela se acolheram biliões e biliões de seres, desde os mais anónimos viajantes ao senhor Buda ou aos pares de namorados, geradores de vida.Neste belo capítulo mergulhamos nas fontes vitais que são as florestas e deparamos com os mistérios da unidade entre dois seres que se encontram com toda uma caminhada por detrás deles, com as suas especificidades e segredos únicos, e contudo prontos a renascer e a darem as mãos no "Logos", no entendimento amoroso.A serpente da sabedoria , do discernimento, da energia interna surge após a águia, unindo os vôos no céu e rumo ao sol, com o serpentear secreto e interior. Mas tal como a serpente surge na cabeça de Buda, Shiva ou Jina, assim o desafio e a graça é lançado ao casal que ousa demandar a sabedoria e a verdade, e que sabe unir o próximo e o longínquo ou infinito harmoniosamente.

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