O Farol – A Insónia

    

 

 

A INSÓNIA

 

      Nessa noite, A.S. não foi capaz de dormir. Durante horas leu o livro de W.N. até lhe doer a cabeça e as imagens se enredarem umas nas outras numa espécie de teia, de onde a aranha se ausentara, pois tudo ficara em grande confusão e nenhum fio encontrava o nexo. Percebeu que aquele não era um livro linear, pouco importava a história (se história tinha) e que começar a ler do princípio, do meio ou do fim também era indiferente…ou será que, por ela ser “Ninguém”, lhe parecia tal? Ou será que o livro para “Todos” tinha que ser lido como o são afinal…todos?

            Quando decidiu apagar a luz e tentar dormir percebeu que não era capaz. Longe de estar a ser martelada pelas cogitações profundas do livro, pelas sentenças, mandamentos e máximas que o autor parecia querer gravar a ferro e fogo, não só neste tempo mas pelos milénios além, A.S. preocupava-se acima de tudo com o subtítulo: que significava escrever um livro “para Todos e para Ninguém”? Havia naquela frase um paradoxo e ela revolvia-se, por entre os lençóis amarfanhados, tentando decifrá-lo. É claro que muito provavelmente tratava-se de uma redundância, de um jogo metafórico como “a escrita com sangue” ou o “torna-te em quem és” como a águia e a serpente, ou o mago persa da floresta…E ela enfurecia-se por não conseguir fugir à tentação de querer perceber tudo, soube que aquela irmanação pressentida durante o farnel no meio da floresta e o caminhar silencioso de braço dado pela cidade agora não passavam de uma espécie de mistificação! O delírio da insónia foi de tal modo intenso que teve a percepção nítida que nenhum escritor cruzara algum dia o seu umbral, que fora vítima de uma cilada dos sentidos e da imaginação, que criara ela própria o seu visitante…

            Depois de várias horas, pois assim lhe pareceram os segundos e os minutos passados no frenesim do pensamento que aguarda o sono, decidiu levantar-se e foi até à janela da sala, a mesma onde horas antes a águia aportara. Abriu-a de par em par e o vento frio da madrugada sobressaltou-a. Em simultâneo, sentiu-se revigorada e mesmo feliz, olhou a lua amarelada em quarto minguante bem acima do horizonte e murmurou, “É preciso aprender a amar-se a si próprio, assim o ensino, com um amor total e são, a fim de se permanecer fixo em si ao invés de vagabundear em todos os sentidos…”, e logo a seguir foi buscar o livro que deixara aberto sobre a cama e continuou, “Este vagabundear intitula-se amor do próximo, não existe palavra que tenha servido para cobrir maior número de mentiras e de hipocrisias, sobretudo entre aqueles que se tornavam intoleráveis a toda a gente…”

            Estas palavras, umas já aprendidas de cor, outras marteladas num murmúrio solene, estavam carregadas de enigma, e contudo qualquer coisa dentro de si lhe sussurrava uma definição nova de egoísmo, esse sentimento humano tão vilipendiado pelas morais e aqui erguido como suprema virtude. Amar o próximo é vagabundear em todos os sentidos, perder o centro, dar cobertura a mentiras e hipocrisias…

            Suspirou profundamente e deixou-se cair sobre o sofá. Uma nostalgia inusitada tomou-lhe conta do ser, gostava de ter ali o escritor, agora reduzido a uma espécie de fantasma pela sua imaginação delirante no ápice da insónia, queria perguntar-lhe o sentido  desta e de outras sentenças tão avessas aos mandamentos comuns da moral cristã, a única que havia praticado, aquela que um dia abandonara mas que não substituíra por nenhuma outra. Captou em si o enorme vazio deixado por essas ausências, ausências de rituais e de preces, ausências de meditações e de êxtases, experimentou um intenso frio espiritual agora percorrido pelo fogo do que lhe pareceu ser uma religião recém-inventada e ainda desprovida de templos ou de fiéis.

            Experimentava uma profunda alteração no mais íntimo de si mesma, já não era a eterna rapariguinha de olhar esquadrinhante, a adolescente em fuga do regime familiar ou a profissional das artes – ofício que aprendera para poder subsistir a sós. O Livro para Todos e para Ninguém, primeiro, a visita do seu autor, mais tarde e por fim o toque indeciso do homem, no caminho não marcado por palavras, feito a dois, mas como se fossem apenas um, desde a floresta até à porta da sua casa, deixara nela marcas indeléveis. Sentiu mesmo que a face mudara e que o corpo se tornara pesado, foi até ao espelho do quarto, onde os sinais do torvelinho insone permaneciam, aglutinados a uma espécie de bafo incendiário e contemplou-se demoradamente. Não, nada havia mudado, a face permanecia delicada, transparente e branca, os caracóis fulvos continuavam tão ruivos como antes e o corpo parecia ainda mais minguado…foi então que reparou num objecto caído no chão do quarto muito próximo da secretária onde ainda mantinha o tinteiro sangrento, um objecto escuro e absolutamente alheio. Estremeceu, olhou  em torno de si, como era possível não ter visto que aquele objecto não lhe pertencia, como era possível haver ali, no chão do seu quarto onde não deixava entrar ninguém uma coisa estranha e aparentemente perdida? Baixou-se e apanhou, a tremer, uma massa metálica e áspera que aos poucos reconheceu: eram os óculos de lentes escuras que W.N. usara para ler o seu manuscrito! Lembrou-se nitidamente da imagem de espanto e comiseração contrafeita que ele ostentava quando lhe pegou na mão e o afastou do seu triste manuscrito, evocou as hastes, penduradas no rosto…W.N. esquecera-se dos óculos… ali!

            Pegou-lhes com infinito cuidado, percebeu que não eram óculos comuns pois tinham várias lentes sobrepostas, teve a noção exacta de que quem assim precisava de um instrumento tão elaborado para ver, e contudo se mostrava capaz de observações tão exactas e profundas como as que fora fazendo enquanto conversavam, ou as que se soltavam sempre que abria ao acaso o livro devia possuir, algures, uma outra visão, bem mais acutilante que a física!

            Regressou à sala, viu  a alvorada a nascer, ao longe, e entendeu que aquele achado lhe dera o pretexto que faltava: agora teria que procurar W.N.! Agora nenhuma razão a impedia de lhe ir no encalço, de lhe descobrir o tugúrio – pois assim designara ele o seu quarto de hotel. A princípio desanimou: quantos hotéis modestos haveria na cidade? Como faria para encontrar o exacto, sem os percorrer a todos, exaustivamente?

            Por fim decidiu não pensar no assunto, sentiu, com agrado, que a sonolência a invadia e que se deitasse a cabeça na almofada dormiria de imediato e mais ainda: intuiu que, ao acordar saberia o modo exacto de encontrar o dono dos óculos perdidos.

           

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