O Farol – O Martelo

  

 

 

O MARTELO

 

     Porém, só passados alguns dias encontrou de novo W.N., apesar de ter feito uma lista exaustiva de todos os hotéis e hospedarias baratos existentes em V. , apesar de decidir regressar à livraria e interrogar o livreiro sobre a morada do escritor. O homem encolheu os ombros e encarou-a com frieza, «Como hei-de saber? Não sou editor, só vendo livros, e, tanto quanto sei, esse W.N. nunca está muitos dias no mesmo local…Muda constantemente de cidade e de país…» Afinal era verdade, e não um surto metafórico, o seu escritor era um errante, um fugitivo e, a esses, dificilmente o sedentário lança a rede!

            Não descobriu a morada ou o tugúrio de W.N., mas viu-o a caminhar em passo acelerado numa das avenidas centrais de V. e resolveu segui-lo. Não foi tarefa fácil, as passadas dele eram muito mais largas que as dela, havia uma multidão a deslizar pelas ruas e, decididamente, seguir pessoas por entre outras pessoas não era a sua vocação. Encontrou-o e perdeu-o dezenas de vezes e o único indício que, momentaneamente, tinha dele era a noção do ritmo dos seus passos, em tudo diferente do comum dos transeuntes. Por fim, uma paragem providencial, no início de uma ponte sobre o rio que atravessava a cidade, deu-lhe o avanço necessário: em poucos minutos pôde alcançá-lo e, silenciosamente, colocou-se a seu lado, apoiada à balaustrada sobre a massa de água verde-escuro.

            W.N. parecia cansado, a respiração arfante, o corpo meio derreado sobre o apoio, a tez pálida, «Por fim encontrei-o…e não foi fácil!». Ele olhou-a e, durante uns instantes, pareceu não a reconhecer, até que se voltou para ela. «Procurou-me? Mas creio que dissemos tudo já…», «Engana-se! E além disso…não deu pela falta dos seus óculos? Não precisa deles? São de tal modo invulgares que não me pareceu tarefa fácil substituí-los de repente…», «Os meus óculos? Sim, percebi que não os tinha, andei às cegas todos estes dias, mesmo agora só vejo de si um recorte. Mas confesso que é um benefício deixar de ver o mundo real, ou aparente, este, que é a visão comum de todos, e ficar atento ao que vejo por dentro! Não me preocupei com os óculos, sabe?». Desconcertada, A.S. não sabia o que dizer, mas retirou o embrulho da bolsa e entregou-lho, «Para todos os efeitos, deve precisar deles, de tempos a tempos, calculo, quando escreve, por exemplo, ou quando lê…», «Ultimamente não leio, preciso estar livre do pensamento dos outros, é necessário que dê à luz…e o parto avizinha-se a passos largos!». A.S. irritou-se. Aquele homem que viera procurá-la, em demanda do faroleiro, seu único leitor, aquele homem a quem desvendara algumas partes de si que jamais confessaria a ninguém, estava neste momento a dispensá-la! E nem um pouco de senso comum era possível inserir no diálogo, ele fugia constantemente para territórios apenas dele, sem consentir qualquer espécie de partilha! «Entendo perfeitamente que eu não lhe importe para nada, até julgo ter entendido a sua definição de egoísmo. Mas repare: e se a minha auto-preservação, enquanto pessoa, se o caminho que me conduz a mim mesma tiver sido alterado por si a tal ponto que só a sua palavra, a sua presença serão capazes de me reconduzir até mim…de novo? Percebe que tenho que o procurar? Percebe que, a partir do momento em que o encontro, não posso deixá-lo ir antes de esclarecer as minhas dúvidas?» A voz tremia-lhe a contragosto, soube que estava prestes a chorar e o local não era adequado a semelhantes manifestações sentimentais. «Peço que me desculpe, habitualmente não choro, mas há vários dias que não durmo…sinto um enorme esgotamento…e quer saber? Tem razão, e o livreiro também teve: o seu livro fez-me mal, as suas palavras ocultam um precipício no qual não desejo tombar!»

            W.N. recuperou do alheamento em que parecia totalmente submerso e encarou a companheira, «Vejo que está, de facto, perturbada, sei ou julgo saber de onde lhe advém semelhante comoção…Permita que seja eu a conduzi-la hoje, deixe-me levá-la até à minha toca!» Segurou-a pelos ombros, enclavinhou depois a mão no seu braço e, assim encostados e em silêncio, percorreram o resto da ponte, desembocando numa rua estreita onde se erguia uma casa de pedra, modesta e limpa, com portadas azuis nas janelas e vasos de flores ornamentando a entrada. W. N. deu-lhe passagem, subiram uma escada e, por fim,  ele abriu uma porta e fê-la entrar num aposento que era uma espécie de saleta ou escritório, antecâmara do quarto de dormir. «Peço-lhe, não procure aqui sinais de mim, não há, é um quarto asséptico, despersonalizado, exactamente como me convém!»

            De facto, o lugar não poderia ser mais comum, com os seus móveis triviais, ao estilo rústico da fachada da casa, e no entanto A.S. percebeu ali a mão feminina, uma denúncia de intimidade, na jarra de flores frescas sobre a cómoda, na almofada graciosa sobre a colcha bordada à mão, na dobra do lençol, imaculado, já aberta para o retiro do sono, no capricho florido dos cortinados, no brilho do soalho encerado de fresco! Mas W. N. não permitiu qualquer conjectura e, oferecendo-lhe a cadeira mais confortável, de braços, com uma almofada de tecido igual à colcha, foi anunciando, «Não escapo à compaixão da  minha hospedeira, como em tempos não escapei à da minha mãe e irmã! Qualquer coisa se desprende de mim, enquanto homem, que apela à piedade, vejo esse olhar e esse gesto em todas as mulheres que se aproximam de mim…mas acredite: são bem mais numerosas as que fogem! Quanto a si…deixe-me dizer-lhe que, de início, me desapontou o facto de o meu único leitor ser, não o faroleiro perdido na solidão do mar, mas uma jovem e frágil criatura do sexo feminino. Confesso que aquele acto insano de abrir as veias e escrever efectivamente com sangue fez vacilar o sentido do poder da minha palavra. Porém, ao mesmo tempo que quis fugir de si, logrado e ainda mais rendido ao amor fati da minha vida, entendi e senti uma vibração idêntica à minha no conjunto do seu ser», – e, enquanto dava passadas no aposento  gesticulava, envolvendo com a curva dos braços o lugar em que ela se sentava, dócil – «percebi afinidades intrínsecas que não quis, que não quero explorar…Há nas mulheres uma sedução diabólica que me faz tremer pois sei que não resiste ao meu vendaval, enquanto sedução, sei que se verte em raiva, em violência para me ferir onde sou mais vulnerável…Lembra-se do dia em que a visitei? Logo que entrei no seu espaço, veio ter comigo toda a luxúria desses seres voluptuosos, dessas feiticeiras de chicote na mão…estive ali pouco à vontade, como deve ter notado! Mas depois…depois…»

            Um grande silêncio caiu nos ares frescos da divisão, a tarde descia e as sombras imolavam os cantos numa aura ígnea feita da explosão final do dia. A.S. ergueu a voz, tornada rouca, no cerne da perturbação emotiva, «Não sabe nada de mim, é por isso que me fala de volúpia e de chicotes! Olhe, veja de que sou feita, sinta a minha pele: que diferença consegue sentir entre nós, que instintos lhe dizem que eu não posso ser diferente dessas que se apiedam de si, dessas que o abandonam?» Por instantes, ela fez com que ele parasse e lhe tocasse o tecido da face, fez com que ele abrisse a palma da mão e envolvesse por inteiro o seu rosto. «Diga-me: que emanou do meu toque? Piedade? Volúpia? Vá, espete a sua farpa derradeira!» «Neste momento tem-me nas mãos, ainda não entendeu? Eu vi, naquele dia em que passeámos juntos na floresta, no instante exacto em que trinquei a sua maçã e depois, quando a serpente me lançou um olhar cúmplice… «A serpente? Qual serpente?», «Ah, não a viu, ela esteve sempre enrolada em torno da árvore junto da qual comemos o farnel! Ela fez-me entender que nenhum perigo me advém de si: primeiro, a águia, mansa e familiar no parapeito da sua janela a indicar-me os voos perigosos entre os picos gelados, a seguir a serpente e o apelo à renovação…E até, veja bem, até os meus olhos, a minha capacidade de ver o mundo dos outros, mesmo eles ficaram consigo…» «E eu vim devolver-lhos! Mas veja o que me disse, veja a importância que deu ao facto de eu ter encontrado o que lhe permite ver!»

            W.N. deu uma ligeira gargalhada e a seguir suspirou e sentou-se ao lado dela. «Ver! Eu não preciso de ver, tenho visão que chegue, aqui dentro, nas sinuosidades do meu cérebro desperto, no latejar violento do meu sangue, no trabalho nem sempre linear dos meus órgãos! De que outro modo haveria de ser? Todos estes dias andei na rua, voltei ao quarto, fiz as minhas refeições…e no entanto, tem razão, só existe uma casa capaz de construir os meus óculos! E tem razão uma vez mais, sem eles não aguentaria muito tempo! Mas deixemos isso: o que descobriu no meu livro, que sortilégio é esse que a tem impedido de dormir? Mesmo sem os óculos – a minha falta de vista é psicológica, sabe, neste momento vejo perfeitamente – consigo notar o seu abatimento, na última vez que a vi não tinha esses olhos ornados de sombras violáceas…», «Ah, vou dizer-lhe, quem sabe se voltarei a encontrá-lo? Explique-me o subtítulo, diga-me por favor, como é que um livro pode ser escrito para todos e para ninguém! De uma forma ou de outra, vou assimilando as sua metáforas, mas este enunciado martela-me a tal ponto as horas da noite que não me permite o descanso!», «Martela! Que som extraordinário, o desta palavra, vinda assim, sem aviso, da sua boca! Como me sinto alegre, daquela alegria dançarina e vitoriosa, por saber que o som das minhas frases, mesmo que seja apenas um subtítulo, faz martelar as horas de alguém! Ouviu, uma a uma, todas as pancadas da meia-noite? E depois, em crescendo, a agonia da aurora até ao esplendor solar da manhã? Sentiu a angústia indizível  da necessidade de soletrar a raiz de tudo o que existe e de, contudo,  ter que vaguear num oceano de dúvidas dilacerantes? Porque hei-de explicar-lhe o sentido do meu subtítulo quando, afinal, o seu estado de vigília torturante justifica a manutenção do  segredo? Quando fui visitá-la (ou ao meu faroleiro leitor) levava comigo a esperança insana de ter por fim encontrado o verdadeiro auditório para a minha torrente… ou escoadouro, se quiser…mas o enigma, esse não poderia resolvê-lo, a metáfora, essa não irei explicar-lhe…Além do mais, já não sou professor!, «E assim me deixa, em angústia e divisão, lutando, noite após noite com a dúvida sobre saber se pertenço à classe de Todos ou se pelo contrário sou apenas Ninguém?», «Veja, veja bem: repare no que disse. Sou apenas Ninguém. Pronuncie outra vez essa  frase, Sou apenas Ninguém! Não percebe que apoucou a grandiosidade da sua própria sentença? Ser Ninguém eis a suprema condição do humano, ser Ninguém, eis o sublime cometimento que nos faz escapar à miséria do Todos! Mas não “apenas” Ninguém, nunca “apenas” Ninguém!», «Deveria antes dizer: Se sou apenas Todos ou se, pelo contrário, sou Ninguém?» «Não, oiça, nem uma coisa nem outra! A palavra apenas não serve a nenhum dos pronomes e, se hoje é Ninguém aquele que entende o meu livro, amanhã serão Todos e esses Todos serão o somatório glorioso de todos os Ninguéns… Pode ser que a sua insónia me diga que estou perante um Ninguém e que portanto escrevi o meu livro para si; pode ser que isso signifique que um dia a humanidade despertará ao som da minha voz para nascer como Todos! Logo, para quê a angústia, para quê esse dilaceramento que lhe faz mal, que lhe retira a vitalidade? Estando num ou no outro lado da sentença que o meu subtítulo preconiza, estará sempre na atmosfera do qual ele nasceu!» A.S. só pôde rejubilar: conseguira que aquele professor renegado o fosse uma vez mais, pois acabara de perceber, perante o som vigoroso do martelo, o lugar que lhe cabia no mundo de Todos.

 

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