O Farol – Guerra e Maternidade

       

 

       GUERRA E MATERNIDADE

 

          A.S. abriu o livro a que dera um uso idêntico ao que os crentes dão à bíblia e leu a primeira sentença que lhe caiu debaixo dos olhos: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele próprio para a guerra, ela para a maternidade, mas ambos próprios para a dança, e não só nas pernas mas também na cabeça. E que se considere perdido todo o dia em que se não houver dançado pelo menos uma vez; e que se considere falsa toda a verdade que não foi acompanhada de risos.” E de novo, baixou sobre ela uma enorme inquietação: A guerra? A maternidade? E em que momento da vida do guerreiro e da mãe se dá o encontro? Quando, oh quando, o descanso do guerreiro encontra o ventre da mãe para que se gere o fruto? Nada, nenhuma alusão ao benefício da entrega, nenhum compadecimento com a ânsia da dádiva, nenhuma fuga para o aconchego secreto dos seres em sintonia, em amor. Homem e mulher, dois destinos, duas funções na vida.

      Uma vez mais precisou de questionar o autor do «Livro para Todos e para Ninguém». Mas haviam cedido a um afastamento tácito, nenhum deles ousava invadir o espaço do outro, principalmente agora que a intimidade dos encontros havidos parecia prenunciar novos horizontes; além do mais, o frio e a chuva assolavam a cidade de V.. W.N. dissera-lhe que não sobreviveria muitos dias na bruma e no gelo daquela latitude! Sem dúvida, demandara já territórios mais brilhantes e secos onde fosse capaz de respirar sem peias! Estranho destino o daquele fugitivus errans

      A seguir ao mandamento gélido dos destinos implacáveis do homem e da mulher, surgia a dança, essa luxúria que aparentemente os reconciliava, esse levantar as pernas em arabescos, esse latejar da cabeça em andamentos vibráteis. Mas a dança do guerreiro teria algo em comum com a dança que advém da experiência maternal? Juntos na dança, mas afinal separados ainda pela omnipotência das suas tarefas opostas!

     Inquieta, com a respiração arfante e os dedos enclavinhados na cabeça, A. S. pensava. «Preciso de o encontrar, agora tenho a certeza! Mas decerto passou demasiado tempo, sem dúvida já nem se lembra que existo e eu … eu…porque regressei assim a casa naquela noite, porque quebrei o sortilégio do chá a dois, servido no pequeno escritório da hospedaria rústica? Decerto ainda não é tarde, pode ser que, afinal, W. N. não tenha abandonado a cidade!»

        Precipitadamente, pegou num casaco e numa boina, enrolou os cabelos por debaixo da gola levantada, desceu as escadas num ímpeto, foi fustigada pelo vento glacial, abriu caminho por entre a multidão das duas da tarde e, quase correndo, cedo chegou à pequena casa depois da ponte. Só nesse momento percebeu que não sabia de facto o verdadeiro nome de W.N., ele usava um pseudónimo e nunca haviam sentido necessidade de esclarecer esse ponto! Hesitou uns minutos à porta da casa, mas o frio e a chuva empurraram-na pelo jardim fora e, quando se apercebeu, tinha entrado no pequeno vestíbulo. Não encontrou vivalma e por isso ousou subir as escadas, muito de mansinho, como se receasse acordar alguém. Quando chegou ao primeiro andar, reparou que a porta do quarto estava aberta e sentiu ruídos diversos vindos do interior. Alegrou-se, ele estava lá, ia poder falar-lhe, vê-lo, confrontá-lo com as suas verdades!

        Quando entrou na pequena saleta, percebeu que não havia um único objecto que sugerisse a presença do hóspede: desaparecera a enorme mala de couro com correias, nenhum caderno ou livro estavam abertos sobre a secretária, não havia flores frescas e a cama, que conseguiu entrever, estava desfeita e o colchão enrolado! No momento em que ia entrar notou a presença de alguém e deu de caras com uma mulher de ar maternal que acabara de fechar a janela e correr as cortinas. Olharam-se, ambas surpresas, a mulher levou a mão ao peito e soltou um suspiro de alívio, «Desculpe, assustou-me…mas, o que deseja?», «Ele, ele…foi embora?», «Agora mesmo, deve estar a chegar à estação…desta vez demorou mais do que eu calculava, nem sabe como lhe faz mal este clima enevoado e frio!», «À estação? Qual estação?», A.S. gritava em desespero, não lhe ocorria que o seu comportamento poderia despertar equívocos, «Diga-me, por favor, que estação?», «A da praça R., sei que parte para M. ,embora desta vez não mo tenha dito…mas ele faz sempre os mesmos trajectos…portanto…»

         A.S. não ouviu mais nada, virou as costas, alcançou a rua e sempre a correr, acotovelando gente, ouvindo alguns impropérios e murmurando desculpas, seguiu o caminho mais curto, tomou atalhos e, esbaforida, com a boina na mão e o cabelo loiro desgrenhado, entrou na estação. O edifício nobre e antigo, com mosaicos pintados relatando fulgores de outras épocas históricas, regurgitava de uma multidão atarefada sobraçando bagagens, os altifalantes anunciavam destinos e indicavam entradas e saídas…olhou os placards e percebeu que o comboio para M. ainda não havia saído, talvez encontrasse W.N. nas bilheteiras ou a caminho da gare!

     Adiantou-se por entre os transeuntes, ajeitou os cabelos deixou que a respiração serenasse e depois caminhou um pouco na direcção do Portão nº 5 de onde sairia o comboio. Não havia ninguém nas bilheteiras mas, a caminho do comboio, que dentro de minutos partiria para M., reconheceu a figura que procurava: com um pesado sobretudo castanho e um cachecol de quadrados, um chapéu de abas largas ocultando os cabelos fartos, W.N. caminhava devagar, segurando a pasta com as mãos enclavinhadas. Ah, como ela conhecia o poder do aperto galvânico daquelas mãos!

        «Espere», gritou ela, quando ele se preparava para subir os degraus da carruagem, «Não entre aí, ainda não terminamos a nossa conversa!» Quando ele se virou para trás, A.S. percebeu que não havia surpresa no rosto pálido, mas antes uma indisfarçável expressão de júbilo. Mais afoita, avançou pela plataforma e quando estava muito perto agarrou-lhe o braço, «Como pode pensar em ir-se embora deste modo? Não há então em si, nem uma réstia de consideração pelos outros? Não entendeu até onde conseguiu tocar-me? Primeiro, escrevi com sangue, depois, franqueei-lhe o interior de mim e, não se esqueça: foi no meu parapeito que a águia poisou…foi o tronco da minha árvore que a serpente enlaçou…», «Mas eu disse-lhe que partiria! Eu não suporto o Inverno em V.! Além disso…lembra-se como me deixou precipitadamente na outra noite? Ah, eu nunca soube lidar com mulheres, já lho disse!», «Mas esta mulher, que assim corre à sua procura, esta mulher com quem diz não saber lidar é a sua única leitora! Lembre-se que me visitou, lembre-se que se não tivesse ido a minha casa, eu jamais saberia quem é o escritor do livro que agora transformei numa espécie de bíblia! Isso não lhe dá obrigações?»,«O comboio vai partir! Se não entro agora já não sairei hoje de V. e tenho que ir, acredite que tenho!». Porém, A.S. não lhe largava o braço, um desespero tremendo tomara conta dela e a mente não discernia os actos que o corpo ia praticando, a fúria insensata com que o retinha e puxava para si assemelhava-se a um grito, a uma súplica que contudo não soltava. W.N. entendeu-a, dominou a sua própria necessidade, «Deixe-me ao menos retirar a minha bagagem…não poderia ficar… sem ela…»

       A.S. pôde por fim libertar o aperto com que o segurava firmemente, ele subiu devagar a escada do comboio, arrastou para fora a mala pesada e os dois assistiram à saída das carruagens, primeiro com uma lentidão exasperante e depois, à medida que a máquina ganhava velocidade, com a força violenta do gigante que afinal era.

 

 

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