O Farol – A Dança

      

[Degas]

 

A  DANÇA

 

           Algumas horas depois – o crepúsculo insinuava-se, cinzento, nas aberturas da casa – W.N. sentava-se, sozinho, no sofá cor de mel em frente à janela onde, numa manhã gloriosa, a águia arribara. Estava ali e sentia-se estranhamente calmo, como se nenhum outro desfecho pudesse convir àquele específico momento: de facto, para onde ir, na cidade de V., uma vez que deixara o hotel e não saberia como enfrentar a hospedeira e pedir-lhe o seu quarto de volta? Precisaria de dar explicações,  ela não se coibiria de o questionar e de lhe demonstrar surpresa! Acabou por aceitar a hospitalidade de A.S. que em nenhum momento da viagem de retorno da estação lhe largara o braço, como se temesse que ele se escapasse por qualquer encruzilhada ou desaparecesse numa esquina! «Não posso ficar em sua casa, não é conveniente», protestava ele, enquanto, batidos pela chuva fria, aguardavam um carro que os tirasse dali, «Não quero invadir o seu espaço, não posso…não é conveniente!». «Não é conveniente? Mas que quer isso dizer? Eu tenho quartos, vivo sozinha naquela casa grande, posso proporcionar-lhe conforto e terá a sua privacidade…Sou livre, entende? Nada lhe cobrarei, porque acredito na liberdade dos outros, entende?» Curiosamente, os dois repetiam certas palavras até à exaustão, como se precisassem obstinadamente de arranjar pretextos, de colocar tudo em causa a ver se, no final, uma aberta de possibilidades lhes garantiria a certeza da tomada de decisão. «Um homem e uma mulher, dois desconhecidos, assim sob o mesmo tecto, de um momento para o outro…parece-lhe conveniente?. «Eu sou livre, entende? Ser homem ou ser mulher pouco representa, não é a diferença de géneros que está em causa entre nós, entende?»

       Aturdido e acossado pela tempestade e pelo rumor da insistência da sua companheira e única leitora, ele deixou-se levar, não fez o mínimo gesto de repúdio quando ela indicou o próprio endereço ao motorista e depois arrastaram a pesada mala pelas escadas íngremes e ela abriu para ele um quarto com ligação directa a um pequeno escritório e anunciou, «Estes serão os seus aposentos, aqui trabalhou e viveu o meu pai há muitos anos!»

        Os dois espaços eram amplos e sóbrios, o quarto assemelhava-se a uma cela, com os elementos estritamente necessários para o acto de dormir, mas o escritório, por contraste, era quase sumptuoso. Havia estantes com livros cobrindo as paredes, subindo até ao tecto e uma larga e nobre secretária polida marcava o centro da quadra sobre um tapete rico de material espesso. Um cadeirão de couro assinalava o canto da leitura junto da janela larga e as luzes dos candeeiros marcavam com nitidez as diversas funcionalidades. Não pairava ali nenhum espírito, como se, fechados ao tempo, aqueles dois lugares houvessem mumificado. «O seu pai viveu aqui? Mas, não se nota, é tudo inócuo…», «Eu tornei-os anódinos, a estes dois sítios, libertei-os da presença dele, mandei pintar, estofar, assoalhar, deixei que o ar entrasse, continuamente, durante meses, expulsei da atmosfera que aqui se respirava todos os miasmas daquele homem! Ele viveu aqui, mas o certo é que já não vive! Por muito que procure, não encontrará nestes livros ou nestes móveis o mínimo sinal da presença dessa pessoa que, quando partiu definitivamente, eu decidi abolir por inteiro! Se lhe digo que ele era o meu pai é na medida exacta em que nasci pela sua intervenção física. Nada mais!». W.N. estremeceu perante o tom de voz daquela mulher, tão suave e delicada e contudo falando do pai com uma expressão glacial e uma  entoação por onde perpassava uma espécie de desprezo absolutamente isento de dor. «Não me julgue, ouviu? Não ceda à tentação de me condenar…aboli o meu pai, sim, e daí? Não é isso que prega também no Livro para Todos e para Ninguém? Não nos envia para o reino dos nossos filhos, deixando para trás o país dos nossos pais? Não é essa espécie de crueldade para com o passado, essa caminhada incessante para a auto-superação, em que ficamos a sós com o nosso próprio poder, a síntese do seu mandamento mais elevado? Considere-se um filho meu, já que sou a sua única leitora, e transponha o umbral deste espaço que asseptizei para si, mesmo sem saber que vinha!», «Deparei com uma construtora de enigmas, não há dúvida, foi certeira a minha busca!», «Instale-se, vamos, use os aposentos como quiser, faça deles a sua morada enquanto lhe aprouver!»

        Dizendo isto, A.S. deixou-o só. Durante uns momentos, W.N. deteve-se, imóvel, no centro da pequena biblioteca, passou os olhos pelos títulos dos livros, afagou, sem se dar conta, o couro da poltrona de leitura e, aos poucos, percebeu que o ambiente poderia pertencer-lhe…ao menos durante uns tempos…porque não?

        Estendeu-se na cama, percebeu que era austera, mas confortável, olhou a decoração simples, o armário sólido e a cadeira de torneado caprichoso, apreciou os candeeiros de latão revestidos de patine e os cortinados de veludo escuro entreabertos sobre uma musselina que deixava passar, atenuada, a neblina da tarde, e um sofrimento agudo espetou-se-lhe no peito, pois percebeu, nesse instante, que aquele sortilégio não lhe pertencia, que poderia, episodicamente, deixar ali uma espécie de marca e mais tarde ver aquele sítio como uma memória aprazível…mas ficar para sempre? Permanecer ali, paredes meias com uma mulher vibrante, também ela enigma, também ela só?

       A certa altura percebeu que batiam à porta, não soube se passaram minutos ou horas, talvez tivesse adormecido pois uma noite azulada orlava a musselina da janela. Levantou-se, alisou os cabelos para trás compôs o vestuário amarfanhado e deu uns passos até à porta.

       «Venha, preparei uma refeição, sem dúvida tem frio, decerto está esfomeado. Sente-se, coma, eu preciso de sair!» Dizendo isto conduziu-o à sala, onde todo o esplendor, subtraído aos quartos, ali pontificava em absoluto. Da lareira acesa saía um bafo morno, as luzes refulgiam, suaves mas profusas, os pratos lançavam um odor familiar, «Já percebi do que gosta, como vê, tem o seu chá, a sua sopa, os seus vegetais…se precisar de alguma coisa procure!»

        W.N. acabou de comer, surpreso com a selecção certeira dos ingredientes da refeição, atónito, porque a habitual enxaqueca parecia de todo arredada naquela noite e por fim sentou-se no sofá cor de mel onde o seu livro se abria, solto, como que casualmente. Apanhou-o e leu: “Ao homem e à mulher eis como os quero: ele pronto para a guerra, ela para a maternidade…” Suspirou e concentrou o pensamento na sua própria sentença, viu de que modo aquele seu estar ali desfazia por completo a máxima! O guerreiro, sim, exactamente, o guerreiro era ele, ele que, sem hesitar, saíra do comboio e acompanhara docilmente a mãe…e não fora exactamente assim que ela o tratara, ao conduzi-lo ao quarto, ao dar-lhe aposentos para viver, ao preparar-lhe a refeição? E contudo… e contudo…

     Quando recuperou do alheamento percebeu que já não estava sozinho, A.S. regressara e postara-se à sua frente. «Vejo que está a ler o seu próprio livro…ainda precisa de fazê-lo? Não conhece à saciedade tudo o que escreveu? Aí mesmo, aí estão as palavras terríveis que me obrigaram a partir à sua procura, que me fizeram violentá-lo e impedi-lo que partisse…Como pode um homem ver na mulher apenas e só a mãe? E como pode ela ser mãe, se o motor da maternidade está ausente na guerra? E não me diga que o descanso do guerreiro se dá no ventre da mulher para que ela engendre outros guerreiros…não aceito semelhante concepção dos sexos!», «Veja, eu disse-lhe desde o início que não sei lidar com as mulheres, talvez não as entenda de facto, talvez que esta sentença não passe de uma ignorância essencial em mim… «Admite-o? Consegue renegar as suas doutrinas, renegar-se, enquanto mestre, mesmo perante si mesmo?», «Não, renegar não é a palavra certa, mas há uma intensa disparidade entre o que escrevo, e o que sou enquanto escrevo, e o que faço, e o que sou enquanto faço. Na escrita sou o guerreiro que enuncio e mais, sou o Super Homem que preconizo, mas enquanto existente…eis aqui um decadente que se transcende, continuamente, no contrário de um decadente! Vejo a aurora dos tempos futuros e nele haverá guerreiros e mães, assim mesmo, na autonomia toda-poderosa da independência que conduz cada um às suas próprias caminhadas…», «Mas o filho? O filho? Também ele é projectado nessa autonomia de que fala, no próprio acto de nascer? A mãe cessa de o ser após o parto ou é-o na continuidade, até dar o filho à  sua singular existência? E o guerreiro procura sempre a guerra, mesmo em tempos de paz, ou inventa-a e deixa o filho que gerou no ventre da mãe sem referências de si? Não há lugar para famílias na sua concepção do mundo?», «Famílias?! Do que está a falar-me? Não me disse, ainda há pouco, que exorcizou por completo a presença do seu pai, que tornou asséptico e anódino o espaço onde ele respirou num certo tempo? A família não é uma condição natural dos homens, não é uma realidade que beneficie particularmente as relações humanas! Homem, mulher… repare, veja: são duas realidades contraditórias e contrárias, nada pode uni-las a não ser num artifício letal…e contudo é necessário gerar os homens futuros!», «Acha que sim? Acredita mesmo no que acaba de dizer? Não lhe parece que a solução da humanidade passa, exactamente, por suprimir novas gestações? Para quê perpetuar a decadência?», «E se a vontade de poder do homem quiser gerar o Super Homem? E se a decadência não for, em definitivo, a última etapa da existência e houver ainda um destino superior a granjear?»

       A.S. não resistiu a sorrir e ele viu. «Não acredita?», «Porque haveria de acreditar? Não sou crente, não aceito, em mim, mitos sobrenaturais ou desígnios humanos: como pode o homem negar os seus instintos até ao ponto de querer gerar um ser que o ultrapasse? Veja, repare como li as suas palavras, note que absorvi a sua sede torrencial de sentenciar sobre os homens. Quem, mas quem irá querer fazer nascer o Super Homem? E veja bem: não será essa, afinal, a tarefa da mulher? Não virá o dia em que o guerreiro estará para sempre dispensado de semear o filho no ventre da mãe?», «Julga que não a compreendo? Sei onde quer chegar, percebo porque se revolta quando prego um destino oposto para o homem e para a mulher…mas porque esqueceu o meu preceito da dança? Porque se fixou apenas na determinação de funções sem ver o que no fundo aproxima homens e mulheres?», «Sim, bem vejo, “mas ambos prontos para a dança e não só nos pés mas também na cabeça…” como se tudo fosse um jogo…como se afinal, guerra e maternidade não passassem de intervalos no rodopio existencial…», «E não é mesmo um jogo, e, ainda por cima, viciado, este que vamos vivendo? Repare, observe: eu sou o último dos decadentes, a doença corrói-me, dia após dia, o peso da dor solitária é cada vez mais avassalador, a vontade de me enterrar no olvido de onde não se regressa nunca ensombra-me as madrugadas…e contudo… contudo… transmuto-me quotidianamente e desperto, e sou capaz de dançar e de rir…mesmo que seja apenas no papel, mesmo que a cabeça me doa e os olhos lacrimejem…», «Dançar? Quer dançar? Tem dentro de si atrevimento para tanto? Olhe, veja, aqui estou eu, uma mulher, ei-lo aí, um homem… uma mãe, portanto, um guerreiro, sem dúvida, cada um na sua tarefa, mas ambos dançarinos! Venha!»

       A.S. estendeu as mãos, viu o seu hóspede hesitar, sentiu o tremor que lhe percorria o corpo inteiro, mas não desistiu, «Então? Ambos prontos para a dança e não só com os pés mas também na cabeça…» «Não, não vou dançar, não literalizarei essa metáfora, a dança de que falo existe no sangue das veias – outra vez o sangue – existe nos poros da pele, nos interstícios de luz filtrados pelos olhos, nas sinapses neuronais…», «E então, não é isso o corpo, não sente o sangue a formigar e a  aquecer-lhe os membros , a luz não está a inebriá-lo e a cérebro não  apela fortemente à necessidade de rodopiar?»

       Com um gesto delicado deu-lhe a mão e, inesperadamente, percebeu que ele se erguia, viu a tensão diluir-se e, quando o teve de pé à sua frente, percebeu que estava ali um dançarino! Sem música, a não ser a que o silêncio do aposento deixava passar num sussurro, ou a que os próprios ouvidos construíam, juntaram as mãos e em breve flutuaram enlaçados, numa sincronia rítmica que não poderia suspeitar-se antes, ela deixando flutuar os cabelos longos, atirada para longe a boina vermelha que os prendia, ele fazendo adejar as abas do casaco e o riso, em breve, o riso eclodiu… e ambos se deixaram cair no sofá, por fim vencidos…mas felizes e exangues!.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta to “O Farol – A Dança”

  1. Rascunhos e Says:

    “Rascunhos & Sentimentos” tem o prazer de vos apresentar : 2º Dueto Poético Rosangela e Lú ╠———«ﻶﻉჱﻶﻉ»—«ﻶﻉჱﻶﻉ»———╣Entre e sinta-se á vontade, junte-se a nós, comente e faça desta iniciativa a sua casa. Desfrute Das palavras que escrevem… Dos sentimentos que desvendam… Seja bem-vindo! “Rascunhos & Sentimentos” Participe também na Ciranda Poética Tema: Aprender Deixando os seus textos, até 20.09, no link:http://cirandapoetica.spaces.live.com/.

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