As Vírgulas

As vírgulas

 

        A vírgula é um sinal de pontuação, tem este aspecto  ,  e é de importância fundamental no discurso escrito. Não necessitamos de vírgulas quando falamos pois, se tivermos prática, se não formos gagos, a pausa ou a denotação que correspondem à vírgula, no discurso escrito, introduzem-se espontaneamente na modulação do diálogo oral. Mas, quando escrevemos, seja qual for o género, literário ou não, com que nos expressemos, se esquecermos esse pequeno sinal ou se o ignorarmos deliberadamente, o resultado pode bem ser catastrófico.

          Admito que não é fácil utilizar adequadamente a vírgula e, tanto podemos pecar por excesso, como por defeito; logo, as regras do uso da vírgula constituem uma espécie de tratado científico que urge conhecer. E, pelas mesmas razões, urge utilizá-las adequadamente.

           Escrever é, simultaneamente, uma técnica, uma ciência e uma arte. Enquanto técnica, aprende-se nos primeiros anos de escola e visa, não só a correcção vocabular, mas também a necessidade de ser da utilização dos diversos sinais de pontuação, entre os quais destacamos a vírgula. Enquanto ciência, implica o conhecimento teórico dessa necessidade, a razão de ser das regras da pontuação e, em suma, a ligação intrínseca que, necessariamente, existe entre a correcção do discurso escrito e a interiorização das regras. Enquanto arte, a escrita possibilita duas atitudes e práticas antagónicas: ou o escritor dá um uso peculiar à pontuação, imprimindo-lhe significações não previstas nos manuais ou abdica dela, através de um uso específico e criativo do discurso escrito. Possibilita, é certo, mas não obriga: pode ser-se escritor, e logo artista, e continuar a utilizar as regras da pontuação, sem que essa fidelidade prejudique o vigor criativo.

           Presume-se que quem escreve para os outros, seja uma carta, um relatório, um livro, pretende ser compreendido, mais, pretende que o seu texto, de menor ou de maior dimensão, soe bem, intimamente, a quem lê. Em geral, a leitura é feita em silêncio, e a mente do leitor tem que processar o sentido e captar a harmonia da peça escrita, chegando ao ponto de absorver, objectiva e subjectivamente, o conteúdo expresso no texto produzido. Ora, os sinais de pontuação, dos quais destaco, aqui, a vírgula, são imprescindíveis para essa absorção. Por outro lado, o leitor experiente, colocado perante um texto em que as vírgulas não estão onde deveriam estar, vai sentir a desarmonia do discurso e cedo se desinteressará.

          Acontece que, e negando o que tenho vindo a afirmar, é perfeitamente possível escrever, por exemplo, um livro, de onde foram erradicadas todas as vírgulas e, apesar disso, o texto resultar, não só absolutamente correcto, do ponto de vista técnico e científico, mas ainda de proporcionar uma leitura cativante e expressiva. Como assim?

          Pois bem: há uma enorme diversidade de narradores implícitos no mesmo escritor, narradores que emergem no exacto momento em que a narrativa se constrói. Cada um desses narradores engendra o discurso escrito, antes ou à medida que vai escrevendo – não saberia dizer, com precisão, se o texto já está mentalmente produzido e o acto da escrita é uma mera reprodução ou transcrição do produto mental ou se, perante a folha e no acto de traçar a primeira frase, as outras se lhe associam de modo coeso – e é esse específico narrador que vive no escritor, repentinamente acossado por um estilo narrativo decorrente da história que lhe aconteceu ou lhe vai acontecendo, que decide se o texto tem ou não tem vírgulas. Posso garantir que aquela espécie de homúnculos que habitam o escritor e o fazem produzir textos sabe se necessita ou não de utilizar a vírgula, como sinal de pontuação, ou se, pelo contrário, não poderá prescindir dela. E, um texto muito específico, pode aguentar-se com toda a credibilidade sem um único desses pequenos sinais, enquanto que outro, também ele específico, não resistirá ao seu próprio estilo se abdicar, uma vez que seja, do precioso sinal de pontuação.

          Uma coisa é, no entanto absolutamente certa: para aceder a escrever sem vírgulas é imprescindível possuir o conhecimento exacto das regras que lhe presidem e realizar a prática da sua utilização, durante o tempo que for necessário, para que, um certo dia, possa escrever, abolindo-as. Explicar-me-ei melhor recorrendo a um exemplo.

          Observem-se estes dois quadros de Pablo Picasso:

                    

                          Picasso, Pablo, O velho tocador de guitarra ( 1903)                                                  Picasso, Pablo, Mulher tocando Bandolim (1909)

        O primeiro (à esquerda) denuncia, à saciedade, a mestria do artista na técnica convencional da pintura, o que prova que Picasso sabia pintar de acordo com as regras; o segundo (à direita) rompe em absoluto com a norma e o resultado é um modo inovador, e logo anti-convencional, que, como é do conhecimento geral, ao menos entre a classe culta, guindou o pintor à categoria de génio universal. Agora vejamos: tal fenómeno seria possível a Pablo Picasso caso ele não se tivesse iniciado como pintor clássico e houvesse, durante anos, treinado a técnica, segundo as regras? E mais: atingiria a celebridade que veio a conhecer, caso, na sua história de artista, houvesse utilizado apenas o estilo que o segundo quadro apresenta? E mais ainda: poderia fazê-lo, daria esse direito a ele mesmo se não possuísse em si a mestria do desenho e da pintura na sua correcção convencional? A resposta a todas estas perguntas é, evidentemente, não, pois o salto para um modo de expressão, único e pessoal, dá-se, apenas, depois de muito treino de escola.

          De igual modo, o escritor só pode autorizar um dos seus narradores a quebrar as regras – por exemplo, abolindo as vírgulas – quando aprendeu a usá-las e as manobra com toda a naturalidade. Aí sim saberá, sem sombra de dúvida, como e quando escrever sem vírgulas é o estilo oportuno e também quando utilizá-las é uma obrigação devida à intrínseca natureza do texto.

         E então, concluirei do seguinte modo.

         Se alguém é/quer vir a ser, de facto, um escritor verdadeiro e verídico, e consegue dar-se conta de que a pontuação lhe é essencial, enquanto técnica, deve absolutamente colocá-la nos sítios adequados; caso não os conheça ( aos sítios) deverá consultar os manuais respectivos ou solicitar a ajuda de um especialista. Depois de treinar, intensivamente e durante anos, a técnica e a ciência da escrita, poderá evoluir para dimensões artísticas, onde tomará contacto com os narradores que vivem no seu íntimo e saberão definir, à partida, o estilo peculiar de cada texto a produzir objectivamente. Se insistir em começar pelo Picasso da direita, antes de assimilar os métodos do Picasso da esquerda, poderá ser muitas coisas mas nunca será, de facto, capaz de produzir a não ser aberrações «literárias».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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