Ah O Silêncio

 
 
 
Quadrado branco sobre fundo branco, Kasimir Malevitch, 1915
 
 
 
AH O SILÊNCIO
 
 
 
 
 
 
Ah o silêncio das planícies doiradas do sul e dos poentes rectilíneos
entre laranjais e rosas
o silêncio repleto de murmúrios feitos de adejares de asas e de cristais  de  fontes
e os riachos
todos eles dispersos e repletos de sombras e vagidos
pelas auroras
nos crepúsculos matizados em luar e encobertos na sombra
o silêncio armadura ténue que nos separa dos timbres agudos resvalando para o nada e contudo enchendo de corrupção o mistério cedo pressentido
 
Ah o silêncio ouvido  como uma conjuração mítica de sons infinitos
o silêncio cristalizado em gotas de chuva pingando nas montanhas
o silêncio com que enchemos de ar os pulmões anquilosados pelas intempéries do ruído
o silêncio com que refrescamos as têmporas maceradas de iniquidade
o silêncio com que vestimos a pele arrepiada dos frescores da manhã
 
Ah o silêncio escorrendo puro entre as agulhas dos pinheiros matizando de cores a planura desértica ribombando nas tardes em explosão meteórica de alegria consentida
 
Ah o silêncio de que somos privados embrutecidos em miasmas de músicas todas elas roufenhas e sempre zumbindo como se fosse o tecido mental que nos reveste
 
 
Chamemos o silêncio e deixemos que a voz que promana dos interstícios do milagre seja o verdadeira som dos oceanos estremes da interioridade que somos

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