«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»

      

 

 

 

 

 «O MANUAL DE MAUS COSTUMES»

 

 

 

       Asneira é uma palavra derivada de asno e, pelo menos entre os humanos, um asno é um estúpido, um homem (ou mulher) que faz, diz ou escreve asneiras. Os asnos não falam, não escrevem e são usados como metáfora, sem dúvida cruel e injusta, para designar um ser humano de vistas curtas e inteligência diminuta: se fosse preciso, pediria desculpa aos asnos verdadeiros por utilizar aqui a palavra asneira, do nome deles derivada. Porém, felizmente para mim e para eles, não terei que levar a cabo um tal pedido: eu uso apenas a palavra, sem pensar nos animais que, contrariamente à etimologia, do seu nome advinda, não produzem asneira, e eles nada sabem destas artimanhas verbais dos homens, pelo que ficamos todos bem – eu e os asnos (esses mesmos, os de quatro patas, os de orelhas compridas).

       Ultimamente tenho ouvido muitas asneiras: e eis-me de novo a sair a terreiro para defender José Saramago. Não que ele precise seja de quem for para defendê-lo, mas porque a ignorância que grassa nas mentes é de tal modo grotesca que resolvi prestar alguns esclarecimentos a quem eles puderem ser, eventualmente, úteis.

       Ainda não tive oportunidade de pôr a mão no livro «Caim» pois toda a atoarda emitida pelos meios de comunicação social, toda a polémica, e consequente criação de  escândalo, produziram o efeito de varrer das livrarias a obra que foi esgotando em lotes sucessivos; quando decidi comprá-lo, não o encontrei em parte alguma. Porém, contrariamente a muitos daqueles que pregam contra as heresias, alegadamente proferidas nesse livro, eu conheço suficientemente a Bíblia para entender razoavelmente o sentido da expressão usada por Saramago ao referir-se ao livro sagrado como «um manual de maus costumes».

       Obviamente que Saramago está a levar em conta o Antigo Testamento, esse em que um deus cruel e vingador pontifica como protagonista e desencadeador de inúmeras carnificinas, injustiças, calamidades, destruições, ódios, vinganças e por aí adiante. Um  deus que, por inércia e ócio, se diverte a criar um mundo e nele dois seres privilegiados: o Homem e a Mulher. Instala-os no Jardim do Éden, fá-los senhores absolutos de um local de delícias mas com alguns limites, dentro do seu superior controle. Deixa-os fazer tudo, permite-lhes o prazer, a indolência, a gula, apresenta-lhes frutos prodigiosos e sumarentos das diversas árvores do Jardim: mas aponta-lhes uma, talvez a mais frondosa e colorida, decerto a que, no centro do Paraíso, prometia maiores delícias gustativas, e ordena: «Daquela não podereis comer, porque no dia em que o fizerdes expulsar-vos-ei do Paraíso!» Porém, ela estava lá, essa árvore magnífica, e o primeiro par de humanos passava por ali nas suas deambulações e não conseguia entender por que razão lhes era vedado tocar naquela, precisamente naquela, e só naquela. Que quereria Deus dizer com «expulso-vos do Paraíso»? E porque razão comer um fruto de uma árvore, no meio de tantos frutos de tantas árvores poderia ser motivo para «expulsão»? E mais: expulsão, para onde, se eles nada conheciam que não fosse aquele jardim, para eles concebido?

       Ao mesmo tempo que deus criou a proibição, inventou, de igual modo, a tentação e a dúvida, inventou o engenho nas inteligências primevas e amodorradas dos primeiros humanos, que se sentiram inevitavelmente atraídos para aquilo que lhes havia sido proibido, querendo perceber a razão de semelhante restrição e, quem sabe?, entender também o sentido do termo expulsão e as consequências de semelhante castigo. Logo, deus criou, em simultâneo, a origem do pecado e o próprio pecado pois construiu Adão e Eva com uma perplexidade  inicial, com um dilema e com um desafio. Deu-lhes tudo, à excepção do livre-arbítrio, concedeu-lhes o alimento do corpo em profusão, mas não lhes alimentou, do mesmo modo, a imaginação e a inteligência. E assim, inevitavelmente, os dois habitantes do Éden comem da árvore proibida! Eles «tinham» que comer e deus sabia disso. Eles «tinham» que vencer o desafio da proibição, ultrapassando-o, e deus também o sabia. Logo, deus criou Adão e Eva com essa capacidade inicial para não resistir à beleza de um fruto interdito pelo criador e sabia que estava a criá-los exactamente assim.

       Que deus é este que gera a perfeição, mas lhe coloca, de imediato, limites e entraves? Que deus é este que dá tudo às suas criaturas – aquelas que criou à sua imagem e semelhança – e lhes põe permanentemente debaixo do olhar e de todos os sentidos o obstáculo à mesma perfeição?  Que deus é este que coloca a espada da cisão e o fantasma da expulsão humilhante à frente dos seres criados como seu reflexo terreno?

       Adão e Eva comem o fruto interditado e percebem uma quantidade de coisas que a cegueira amodorrada do jardim das delícias lhes tinha impedido de ver. E deus, o pai e criador, não está com meias medidas: expulsa-os e condena-os a uma existência dura e ingrata, envia-os para terrenos inóspitos que precisarão de cavar com as próprias mãos, de onde deverão fazer emergir o alimento, antes oferecido graciosamente, e obriga-os a multiplicarem-se como os outros seres da natureza na aflição e na dor.

       Manual de maus costumes? É claro! Um pai que proíbe, sem explicar porque proíbe, um pai que ameaça castigar o prevaricador, sem dar qualquer indício do sentido de semelhante prevaricação, um pai que castiga e condena esses dois primeiros pecadores, e todos os outros que deles serão gerados, a um nascimento contaminado por uma falta absurda, insensata, ridícula. Imitaríamos nós um tal pai? Seríamos capazes de educar deste modo os filhos por nós concebidos?

       Depois, Adão e Eva, na labuta terrena, engendram dois filhos: Caim e Abel. E deus, vigilante, observa que a índole de um é diferente da índole do outro e, em vez de acarinhar o mais fraco, em vez de se intrometer positivamente na construção do carácter de Caim, favorece, com a sua predilecção, Abel, o melhor dos dois, gerando a inveja, o ódio, o ímpeto assassino no desfavorecido, no rejeitado. Ambos trabalham e ambos oferecem a deus o produto das suas respectivas tarefas, cereais e cordeiros, e enquanto o pai e criador, recebe com agrado as oferendas de um, rejeita com desprezo as dádivas do outro. Que admira que a raiva recrudescente tenha levado Caim a matar Abel e a suprimir desse modo o privilegiado, seu rival, sua sombra, instrumento do seu castigo e da sua desgraça aos olhos de deus? Afinal, quem matou Abel não foi Caim, foi deus, esse que discriminou e enraiveceu e enregelou um irmão perante o outro, esse que a partir dessa hora abriu caminho para todas as guerras fratricidas perpetradas pelos milénios além e que, apesar dos esforços de muitos homens, continuam e continuarão acesas no lume sanguinário do sangue irado de Caim.

       Manual de maus costumes? É claro! Que pai humano rejeita e abomina o seu filho, mesmo quando ele erra, que pai humano não se dispõe a acarinhar o filho mais fraco ou rebelde para o colocar no bom caminho? Que pai humano estabelece diferenças entre os seus filhos e rejeita ostensivamente as oferendas do menos bom que, apesar de ser menos bom, ainda assim quer agradar ao progenitor?

       E um dia, o criador do mundo e dos seus primeiros habitantes humanos, obrigados a dar à luz em partos sucessivos, obrigados a descender de Caim, o ignominiado, o fugitivo, obrigados a albergar em si a semente do mal, neles deposta pelo próprio criador, enjoa-se da sua obra, fica repugnado com a miséria das suas criaturas reles, reles, porque ele assim as quis, reles porque reles era também o mesmo criador. Não pensa redimir o seu próprio erro e emendar, num gesto omnipotente, a mão inicial, salvando as criaturas perdidas pela sua própria incapacidade de educar a criatura. Torna-se assassino declarado e elimina toda a espécie num dilúvio universal, de onde não pretende deixar escapar a sombra de um homem; mas faz pior ainda: elege, de entre todos, um casal e a sua família, os únicos que no seio das multidões perversas e pervertidas lhe merecera complacência e, nesse gesto, discrimina, de novo, afunda nas águas revoltas homens, mulheres e crianças e apenas salva aquele punhado de seres, com  a promessa de que, mais tarde, eles seriam a condição de um mundo melhor: esse que ele, enquanto deus, não foi capaz de conceber e executar.

       Manual de maus costumes? Na história dos homens, só os bárbaros e os loucos, os tiranos e os ditadores promoveram, no mundo tal como o conhecemos hoje, genocídios aproximados a este! Só os degenerados que, apesar do sacrifício da geração de Noé continuaram a ser concebidos e tolerados por deus criador, levam a cabo, em pequena escala, um procedimento de tal modo cruel e implacável!

       E a saga bíblica prossegue e encontramos um certo Abraão, dilecto de Deus, um homem poderoso e chefe de outros homens numa tribo de pastores, um homem eleito e contudo incapaz de ter um filho apesar de muitos pedidos a esse deus clemente e piedoso. E eis que em extrema velhice deus permite que Sara, a mulher estéril de Abraão, conceba e dê à luz um filho, Isaac, o primogénito, o descendente. Tudo parecia estar no devido lugar, até ao momento em que deus fala a Abraão e lhe exige que suba à montanha e  uma vez ali, no silêncio absoluto e sem testemunhas lho ofereça em sacrifício! E Abraão não hesita, temente a deus, servil e incauto, e conduz Isaac inocente até ao sítio indicado por deus e, uma vez ali  amarra-o, levanta a faca para degolá-lo; até que deus proclama: «Provaste a tua fé, por isso desamarra Isaac e sacrifica-me aquele cordeiro!»

       Manual de maus costumes? Que Deus é este que dá um filho a um pai e o faz amá-lo e depois lho arranca na satisfação mesquinha de um simples capricho – «quero ver se valho alguma coisa para este homem, quero ver se ele tem fé em mim, quero testar de novo o meu poder!» Qual de nós obedeceria a semelhante Deus e se disporia a matar o próprio filho para satisfazer um capricho, por mais divino que fosse ou aparentasse ser? Qual de nós não morreria de horror perante a necessidade de assistir à morte terrível do sangue do nosso sangue, por nós mesmos executada? Qual de nós seria capaz de regressar para casa de boa consciência, mesmo depois do cancelamento do acto executório, e olhar nos olhos o filho prestes  a ser executado e a mãe, companheira de vida e amante desse único filho gerado apesar da própria esterilidade?

       Poderia prosseguir durante páginas e páginas mas não me parece que valha a pena. Estes exemplos chegam para definir o carácter desse nosso alegado criador, desse tirano caprichoso e incompetente, incapaz de fazer seja o que for de bom, e apesar disso vingando-se nas suas vítimas da própria imbecilidade.

       Muito mais tarde, aparentemente, deus fez uma boa acção: inventou um filho mestiço – semi humano, semi divino – deu-lhe qualidades positivas e ordenou-lhe que salvasse os homens, pô-lo em condições de corrigir a sua maldade e incompetência criadora. Esse homem enigmático e de origem misteriosa, Jesus, inverte o sentido da implacabilidade criminosa do pai, anuncia o perdão, o amor, a benevolência e a tolerância. Opõe ao gume do machado, o gesto da bondade, ao grito de furor, a serenidade das palavras, à saga da destruição, a quietude de um mundo feito na concórdia. Todos sabemos que já era tarde demais, todos vemos que o hebreu Jesus passou pela terra sem que um só o entendesse cabalmente, a ponto de tornar universal a verdadeira boa nova. E de novo, o cristianismo emergente das palavras e dos actos cifrados desse filho de deus e do homem, miscigenado em corrupção divina e inocência humana, gerou crimes, ódio, guerra!

       Manual de maus costumes? Que deus é este que envia um filho, através de um embuste humano – uma virgem que procria – para a seguir o condenar à morte ignominiosa dos ladrões e dos assassinos? Que deus é este que não é suficientemente eficaz enquanto pai, desta vez directo, de gerar um filho com a competência absoluta e efectiva de redimir o aleijão, criado e consentido, que dá pelos nomes de mundo e de humanidade?

       Vá lá, vão ler a Bíblia, esse livro que tanto mal tem feito aos homens, geração após geração, leiam-no com sentido crítico, analisem-no com inteligência, não dêem ouvidos aos pregadores que inventaram, há um ou dois séculos, que, afinal, a Bíblia é apenas literatura, um texto magnífico engendrado por pessoas inspiradas e que tudo o que ali se consigna significa o contrário do que está expresso! Analisem aquelas histórias aterradoras e maquiavélicas como se elas fossem mesmo a história da nossa génese, e não como metáforas de um deus, afinal complacente e justo, mas desfigurado nas linhas alegóricas da mistificação literária. Talvez a seguir possam concordar com Saramago e admitir que a Bíblia é, de facto, um manual de maus costumes, um relato de perversões e maldades, de crimes e genocídios e que tudo isso tem a marca de um suposto criador, tido como omnipotente e infinitamente bom, mas afinal fraco, caprichoso e absurdamente maléfico.

 

 

Nota de rodapé: Este texto é, sem dúvida, um conjunto de erros para a plêiade de hermeneutas e de exegetas da Bíblia; se eu quisesse fazia heremenêutica e exegese como eles: não faço e provavelmente nunca farei – falta-me tempo, porque  prefiro ocupar-me de actos criativos, em vez de remexer constantemente no antigo, no já feito. Portanto, o texto fica, para valer exactamente o que vale e nada mais!

 

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