QUANDO A FICÇÃO SE TRANSFORMA EM PODER (E VICE-VERSA)

 

                                         

               

 

 

             QUANDO A FICÇÃO SE TRANSFORMA EM PODER (E VICE-VERSA)

 

Citações: 1. «O Antigo Testamento é formado em grande parte por uma compilação de histórias, muito à semelhança de um romance.»

             2.  «Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a família.»

            3.   «Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade e até que ponto Deus – ou o Destino – pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado no Segundo Livro de Samuel. Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição   e da brutalidade humanas.»

                          Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, in Jornal Público, 27 de Outubro de 2009

 

 

        Lendo estes três extractos do texto publicado no Jornal Público do dia 27 de Outubro de 2009, da autoria de Richard Zimler, ocorrem-me, desde logo, algumas reflexões. Em primeiro lugar, segundo o autor, a Bíblia não passa de um romance, escrito não se sabe muito bem por quem, nem se sabe muito bem quando e, dadas as cogitações aqui expressas, não se sabe muito bem para quê, e logo todas as suas personagens, incluindo Deus, são fantasias urdidas por escritores muito imaginativos! Portanto, Deus não existe! Tantos milénios decorreram, tantos filósofos se descabelaram  para negar ou demonstrar a existência de Deus, e eis que esta súbita elevação da Bíblia à categoria de romance, ou poema, e logo ficção ou metáfora, anula o problema, enunciando que tudo o que existe no Antigo Testamento, enquanto relato, desde a criação do mundo até ao apocalipse, passando pelo dilúvio e pela destruição de Sodoma e Gomorra é comparável ao Crime e Castigo de Dostoievsky!

       No entanto, no decurso do terceiro extracto citado, o autor escreve: «Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus – ou o Destino – pode ser impiedoso, bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento.» Ao fazer esta afirmação, Richard Zimler nega o carácter fictício e ficcional do Antigo Testamento, pois é possível «conhecer» a crueldade e a abominação das personagens bíblicas e do seu Deus. É uma descrição de factos, afinal, ou uma ficção inventada por criadores iluminados? Do mesmo modo poderíamos dizer que o romance citado de Dostoievsky nos permite «conhecer» o carácter patológico e perverso de Rodion Raskolnikoff, considerando que a ficção, afinal, descreve uma história vivida, de facto, na Rússia do século XIX. Ou será que a palavra «conhecer» adquiriu um novo significado e já não é entender, reconhecer, saber, aprender com base em hipóteses provadas experimentalmente ou em argumentos seriamente ponderados e esgrimidos?

 

  Citação:     4.  «Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos de tradição poética ocidental.»

 

       Dois mil anos de tradição poética ocidental – eis aquilo a que se resume o Antigo Testamento e os seus protagonistas, com o principal – Deus –  incluído ali, enquanto mito e logo ficção! E assim, nem Deus, nem os profetas, nem os heróis, nem os eleitos devem ser tomados à letra, pois não passam de personagens de um emaranhado de histórias que ninguém, no seu juízo perfeito, alguma vez deverá levar a sério! E no entanto essa prodigiosa ficção alimentou e alimenta uma série de cultos religiosos, essa ficção é chamada de sagrada e os seus autores, ainda que anónimos, de paladinos da inspiração divina – esse Deus que eles inventaram e  os inspirou num inaudito círculo vicioso. Entender o Antigo Testamento, segundo Zimler, é  reduzi-lo ou expandi-lo – tanto faz – à categoria de mito, recitando-o e cantando-o, quando é belo, ou detestando-o e afastando-o dos olhos, quando é vil.

        Apesar disso, séculos de literalização, do que afinal é metafórico, produziram e continuam produzindo  força de lei. Quem não se lembra de Giordano Bruno e de Galileu, condenados à fogueira, por heresia, apenas porque a Bíblia afirma a teoria geocêntrica, e qualquer um deles acreditou e provou cientificamente e expôs publicamente a teoria oposta? Se não me engano, tais condenações tiveram como base um episódio bíblico do Antigo Testamento – e logo uma metáfora – no contexto da qual Josué mandou parar o sol, para que o dia ganhasse as horas de que o seu exército necessitava para vencer o inimigo [Sol, detém-te sobre Gabaão; e tu, lua, sobre o Vale de Ajalão! (Josué. 10, 12.)].  Metáfora? Talvez; e contudo semelhante metáfora serviu para perseguir como hereges e queimar na fogueira os que, proclamando o movimento da terra em torno do sol, negaram essa verdade (afinal ficção). Sabemos que Galileu escapou da fogueira, porque lhe foi permitido retractar-se, sabemos que, com a idade de 70 anos, o cientista compareceu em tribunal perante inquisidores e alto clero e negou tudo o que afirmara e provara, não tendo sido, porém, dado à liberdade, pois cegou na prisão, obrigado a produzir diariamente textos permitidos pela igreja e trabalhando no escuro a ciência experimental, essa heresia afinal estribada numa imagem poética e num pregão fictício do eleito de Deus, Josué, o sucessor de Abraão! Dois mil anos de tradição poética? E contudo, essa alegada tradição poética teve peso de lei no século XVII, quando Bruno foi queimado vivo e Galileu se retractou humilhantemente perante o clero de Roma!

      O texto de Ricahrd Zimler é uma tragédia de superficialidade e falta de rigor, é um embuste e um insulto à inteligência de todos os que têm olhos e sabem ler.

 

 

                        Fonte das citações: http://ipsilon.publico.pt/

  

 

 

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