TEIXEIRA DE PASCOAES ANIVERSÁRIO

TEIXEIRA DE PASCOAES 

 

ANIVERSÁRIO

(Amarante, 2 de Novembro de 1877)   

 

 

 

Teixeira de Pascoaes, Aguarela 

 

 

 

 

 

IDÍLIO

 

 

 

A luz do teu olhar,

Funde meu corpo, em sonho em lágrima e luar!

Teu divino sorriso

É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso…

 

Teu sorriso que lembra a dôce aurora,

Minhas lágrimas tristes evapora

E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela…

Assim o fresco orvalho matutino,

Onde encantado vive o sol menino

Deixa nas brancas rosas uma estrêla…

 

Ao descobrir-te, flor,

Todo me exalto e elevo em cânticos de amor,

Perco-me, na amplidão…

 

Sou asa entontecida, aroma, comoção,

Se me tocam, de leve,

Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!

 

Alegre, choro; e rio sempre aflito!

Canto, soluço e grito!

Sou oração, queixume,

Relâmpago, nevoeiro, onda do mar, perfume,

Quando, da tua face,

Límpida rosa nasce

E de ti se desprende o encanto da manhã,

Que é a tua sombra mística e pagã;

Quando, ao doirado zéfiro, estremeces

E, aureolada de beijos, resplandeces,

Como florido arbusto…

E és o sol, esculpido em feminino busto.

 

Estrêla, bem-me-quer!

Imagem de mulher!

Deslumbra a noite os montes incendeia

E a morta lua cheia!

Quebra as marmóreas tampas sepulcrais!

Que regerassam à vida os corpos espectrais!

Liberta os arvoredos

E as ondas abraçadas aos penedos!

As almas embriaga;

Sensibiliza a fraga

E as nuvens a voar…

Embebe-te na luz e muda-a em dôce olhar.

Seja, no Azul profundo,

Lágrima a tremular e a scintilar o mundo;

Enternecida esfera,

Toda ela a palpitar de amor e primavera.

 

Estrêla, flor, mulher!

Mulher, ave a cantar, na luz do amanhecer!

Mulher, rio sonhando, ao longo das campinas.

Mulher, névoa tentando as asas matutinas.

Mulher, árvore piedosa.

Mulher, triste martírio, enamorada rosa!

Mulher, onda do mar bailando com o vento.

Mulher, brisa outonal, crepúsculo cinzento,

Imagem tôda luz da noite escura…

Mulher, esperança, dôr, amor, graça e candura.

Mulher, fonte que chora e que deseja,

Mulher, mulher, mulher, é a terra que o sol beija.

 

 

Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1906

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A MINHA HISTÓRIA

 

 

(…) Em Novembro nasci, por uma tarde triste,

quando os sinos soluçam badaladas;

e lúgubres mulheres desoladas

com piedosas mãos, espalham flores,

sobre a estéril poeira que ainda existe  

de sonhos e amores; (…)

 

Nasci no dia eleito da Saudade,

quando o vulto espectral da Eternidade,

Diante nós chimérico, se eleva,

Com estrêlas a rir na máscara de treva. (…)

 

 

Nasci ao pôr-do-sol dum dia de Novembro.

 O meu bêrço, o crepúsculo embalou…

E até parece, às vezes, que me lembro,

Porque essa tarde triste, em mim, ficou. (…)

 

 

 

Teixeira de Pascoaes,Terra Prohibida,Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1877-1901

 

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