Do Amigo

 
 
René Magritte, La Reconnaissance Infinie (1963)
 
 
 
DO AMIGO
 
 
     "  «Tenho sempre junto de mim uma presença importuna», pensa o solitário.«Sempre uma vez um acaba por fazer dois, com o tempo.
       Eu e Mim estão empenhados num diálogo demasiado veemente. Como seria ele suportável, se não houvesse o amigo?»
       Para o solitário, o amigo é sempre um terceiro; o terceiro é o flutuador a impedir o diálogo dos dois de se afundar nos abismos.
      Ai de nós! há sempre demasiados abismos para todos os solitários. Para isso têm eles uma tal sede do amigo e da sua elevação.
      A nossa fé em outrem trai o que desejariam poder crer acerca de nós próprios. Trai-nos o desejo que temos de um amigo. E muitas vezes a amizade apenas serve para superar a inveja. E muitas vezes apenas se ataca e se faz um inimigo para esconder que se é vulnerável.
     «Sê, pelo menos, o meu inimigo!» – assim fala o verdadeiro respeito que não ousa solicitar a amizade.
      Se queremos ter um amigo, é necessário que queiramos também bater-nos por esse amigo; e, para nos batermos, é necessário que possamos ser inimigo. É necessário honrar no seu amigo o próprio inimigo. Poderás chegar junto do teu amigo sem passares  para o seu campo?
      É necessário ter, no seu amigo, o seu melhor inimigo. É ao resistires-lhe que estarás mais próximo do seu coração.
      Não queres usar véu algum para o teu amigo? Pensas honrá-lo ao mostrares-te a ele tal como és? Mas, como agradecimento, ele manda-te para o diabo.
      Aquele que nada dissimula de si excita a nossa indignação; eis porque vos é tão necessário temer a nudez. Se fôsseis deuses, então sim, seria do vosso vestuário que teríeis vergonha.
      Por mais que faças, nunca estarás suficientemente adornado para o teu amigo.    
      Já viste dormir o teu amigo, a fim de o conheceres tal como ele é? Qual é então o rosto habitual do teu amigo? É o teu próprio rosto visto num espelho grosseiro e imperfeito. Já viste dormir o teu amigo? Não tiveste medo ao vê-lo tal como ele é?
      É necessário que o amigo seja mestre na arte de adivinhar e se calar; sabe primeiro se o teu amigo deseja a tua piedade. Talvez ele ame em ti a pupila impassível e o olhar da eternidade. Que a tua piedade pelo amigo se dissimule sob uma dura casca; quebra um dos teus dentes nessa piedade; só então ela poderá ser delicada e doce.
       És, para o teu amigo, ar puro e solidão, e pão, e remédio salutar? Alguns houve que, não conseguindo quebrar as suas próprias cadeias, souberam no entanto libertar os seus amigos.
       És um escravo?  Não poderás ser amigo. És um tirano? Não poderás ter amigos.    
       Por demasiado tempo se ocultaram na mulher um escravo e um tirano disfarçados. Eis porque não é ainda a mulher capaz de amizade: ela apenas conhece o amor.
       Há injustiça no amor da mulher, e cegueira em relação a tudo o que não ama. E,mesmo no amor iluminado da mulher, existe sempre ao lado da luz, a surpresa, o relâmpago e a noite.
       A mulher não é ainda capaz de amizade. Mas dizei-me, homens, qual de entre vós é capaz de amizade?
       Ai de mim, que pobreza a vossa! E como é grande a parcimónia das vossas almas! O que dais ao vosso amigo estou eu pronto a oferecer ao meu inimigo; e não me sentiria por isso mais pobre.
      A camaradagem existe: possa a amizade nascer!"
 
 
 
Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Editorial Presença, págs.59/60/61
 

3 Respostas to “Do Amigo”

  1. maria isabel Says:

    Natal é a ternura do passadoo valor do presentee a esperança do futuro.Que cada caminho nos leve à paze que consigamos honrar o Natalno nosso coração e conservá-lo durante todo o ano.Um Feliz Natal minha amiga

  2. Que este Natal traga em sua eterna magia, a realização de todos os desejos e deposite em cada sapatinho, saúde, felicidade e muito amor! Que se iluminem os rostos das crianças diante do brinquedo mais apetecido, que nascem sorrisos nos lábios de quem amamos e que cada lagrima caída, seja de alegria… Que as palavras sejam ditas suavemente no calor de um abraço ou na doçura de um beijo e que cada gesto seja uma caricia na alma… Para todos aqueles que passam no Cantinho da Céu e que de alguma maneira completam minha alma, todos aqueles que apesar de eu não conhecer, deixam uma palavra amiga e para aqueles que passam em silencio… Para quem amo, para quem me ama e também para quem não sente nada… Para os conhecidos e desconhecidos…para o mundo inteiro… Desejo do fundo do coração que este Natal seja cheio de Paz, Alegria e Amor…muito Amor!! Um Santo e Feliz Natal… Beijo terno para ti! P.S. Para colocar scraps no meu espaçoclicar numa das imagens da entrada a que diz Guestbook!

  3. Unknown Says:

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