MORTO AO CONTRÁRIO

 

 

 

 

 

MORTO AO CONTRÁRIO

     

 

        o morto estava a dirigir-se para cá e vinha outro atrás dele e não era um funeral    como poderia sê-lo que ideia patética nos funerais são os vivos que se deslocam uns atrás dos outros e o morto vai deitado mais à frente num habitáculo esquisito sem suspeitar da procissão que o segue  

portanto de nenhum funeral poderá tratar-se a menos que seja um funeral ao contrário um larenuf 

(percebem)

palavra inventada para exprimir uma espécie de comitiva de mortos a enterrar os vivos

(pois sem dúvida é disso que se trata)

porém se o morto estava a dirigir-se para cá e se vinha outro atrás dele e cá não é o cemitério nem nada mas antes uma honesta e vulgar residência burguesa

(ou será que se trata de um oirétimec e então faz sentido dizer que um morto com outro atrás estava a dirigir-se para cá num larenuf?)  

Presenciei o espectáculo e custou-me a conceber que aquele morto e o outro atrás pudessem deslocar-se a um ritmo tão veloz e mais tarde entendi tratar-se afinal de um otrom

e logo tudo se aclarou mentalmente já que enquanto o conceito de morto se adequa mediocremente ao acto de dirigir-se seja para onde for o conceito hipernovo de otrom é permeável a praticamente tudo.

E então o otrom estava a dirigir-se para cá e vinha outro atrás dele

e já não era necessário recorrer a imagens usuais e ainda por cima mórbidas de funerais ao contrário ou de siarenuf

(neologismo em tudo distinto do singular que posto na devida linha se parece muito com o plural e que assim invertido ou pervertido soa de modo muito diferente e nem sequer a um plural se assemelha!)

Percebi logo a seguir que estava a ser leviana nesta absoluta inversão das letras de palavras comuns pois uma vez sujeitas a uma tal transgressão as palavras mostram de imediato o seu poder

já que larenuf não designa absolutamente nada de conhecido enquanto que a sua contrária em termos de ordenação dos signos desencadeia uma sucessão de imagens de um rigor extremo onde quer que seja pronunciada e perante os ouvidos de quem quer que seja.

Otrom larenuf oirétimec siarenuf  e eis aqui inventada uma nova língua onde otrom já não é morto ao contrário

porque ser morto ao contrário não é nenhum estado conhecido ser morto ao contrário não tem a mínima substância ou razão de ser e por isso mesmo é possível acrescentar imagens novas a uma designação também ela nova.

Assim sendo podemos recomeçar dizendo que o otrom estava a dirigir-se para cá e vinha outro atrás dele.

 

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