Torpores

 

 

 RODIN, O BEIJO

 

 

TORPORES

 

Não havia na porta qualquer sinal

e contudo a ela fui bater

(transviada e aflita)

como se por detrás

o rosto amigo pudesse abrir-se

e o corpo amplo apertar-me a solidão

 

 

não havia porta (tão pouco)

apenas uma cova informe por onde me dispus a passar

e contudo

soaram gonzos na minha memória

todos eles ecos e fantasias

(sem laivos de temporalidade)

 

 

não havia nenhuma cova

que pudesse abrigar-me do temporal

e no entanto desci

(o que me pareceram degraus) 

e senti

(o que me pareceu o calor de uma fogueira)

 

 

escorraçada percebi

que caíra de uma espécie de sonho

e o lago azul

por onde flutuavam corolas alvacentas

não passava de um charco

(espezinhado)

e a simples  correnteza

 pareceu-me  augúrio de desgraça

(mas também

uma promessa qualquer de sossego

no final da tormenta)

 

 

tanta chuva

tanto vento e sempre

os frios mordentes dos fins da tarde

e os calores inesperados

(após explosões dispersas dos sentidos)

e cedo a tenebrosa sensação de fim de tempo

( como se nada pudesse haver depois da viagem

depois da despedida

como se um destino funesto houvesse de irromper

para tornar fútil a essência de um encontro

para tornar mendiga a riqueza de muitas promessas)

e depois

o frio

escorrendo

(em silêncio)

(quase só silêncio)

pelas paredes absolutamente mudas

pelos tectos

(pesados e hirtos vazios e silenciosos)

 

 

e e eu sei que este silêncio

(repetido e sofrido) 

ressuma de dentro para fora

(só de dentro para fora)

é em mim que se espetam as verrumas da ausência

como se não pudesse ter

(jamais)

um lenitivo

um aconchego

um pedaço de história

(sempre presente

e não desarreigada do passado

e atirada no futuro)

 

 

e este presente suave

presente onde nenhuma onda arremete

(para ditar o percurso)

onde nenhuma porta bate

(para marcar uma entrada)

nenhum sino toca (a alvorada do tempo)

 

 

[e eu sei que tu não pensas assim

(queres deixar vaguear e vogar e flutuar

como asas ou barcos em correnteza diáfana

 a existência )]

 

 

 

 

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