Festa de Aniversário

       

 

RENÉ MAGRITTE, As Férias de Hegel

 

 

 

FESTA DE ANIVERSÁRIO

(Epílogo)

           Pouco sabemos da vida, é verdade e muito menos sabemos da morte, por mais teorias ou alegados relatos que possam fazer-se de uma e de outra. Hegel escreveu que viver é a mesma coisa que morrer e eu, que sou apenas uma estudiosa diletante (como pode perfeitamente demonstrá-lo esta espécie de autobiografia), sem nunca me deter muito a penetrar na orgia dialéctica do professor alemão, interpretei a citação do filósofo mais ou menos assim.

            Vida e morte constituem o todo da existência humana e uma delas encontra a outra num determinado ponto, formando um círculo fechado, cujas pontas se dissolvem no exacto momento em que se unem. Por outro lado, se supusermos que cada indivíduo nascente inicia, vivendo, um percurso paulatinamente orientado em direcção ao desfecho natural, a morte, entenderemos a sentença hegeliana, uma vez que, nos extremos, vida e morte coincidem já que uma conduz à outra, uma é a condição inevitável da outra. Ora, se essa coincidência ocorre no fechamento do círculo dialéctico, estando sempre latente no percurso, mas perdida, enquanto coincidência, pois tendemos a sentir-nos vivos enquanto temos a aparência de vivos e acreditamos ser impossível sentirmo-nos mortos, a partir da hora em que deixarmos em definitivo de ter consciência de nós, porque não há-de despertar, enquanto consciência, a sensação de morte ainda que travestida da ilusão da vida?

            Passei 80 anos de vida crente na trivialidade perfeitamente ordinária e comezinha da minha existência, da absoluta realidade dos eventos do meu quotidiano e ainda do círculo de relações que estabeleci. E contudo, no dealbar desse aniversário, toda a linearidade se desmoronou e eis que percebo novas dimensões do ser e do estar, novos aspectos de mim e do mundo em volta de mim! Compreendo que não vivi um sonho, pois dos sonhos é comum despertarmos, para os situarmos exactamente no patamar da realidade onírica, nossa, sem dúvida, mas incapaz de desfazer a trama coerente da realidade que constitui aquilo a que chamamos vigília. Por essa razão, depois de proceder a algumas investigações, de que fiz antes o relato sucinto, mas que de modo nenhum lançaram claridade sobre a razão de ser do fenómeno do meu rejuvenescimento e regressão, sobre o encontro com Luís de Múrcia e a minha viagem a Portugal, uma outra teoria acabou por ganhar supremacia. Percebi que aquela noite em que os meus filhos se uniram à minha empregada Giulia a fim de me homenagearem com uma festa de aniversário foi, efectivamente o momento do fechamento do círculo da minha existência. Morri, portanto!

            Nunca pensei ser possível conjugar este verbo assim, no pretérito perfeito, e poder dizer como acabei de fazê-lo: Morri!, mas, a crer em Hegel (ou na minha interpretação da legenda hegeliana que citei antes), pronunciar assim este verbo, neste tempo, é tão  legítimo e mesmo lógico como afirmar: Vivi! pois, no extremo da interpretação destas afirmações, elas significam precisamente o mesmo! Logo, a minha festa de aniversário não foi realmente a comemoração de um aniversário mas, provavelmente, a cerimónia ritualística do velório e do enterro. Curiosamente, estive presente nesses cerimoniais, não como o esperavam os meus filhos e a Giulia, mas na posição inversa, ou seja, olhando para todos com a lucidez de quem rompe as amarras com a trivialidade e acede finalmente a viver a excepcionalidade transcendente, que em si habita, mas que o quotidiano esfarela dia após dia, hora após hora.

            Pensam os homens, na sua racionalidade trôpega, que a morte elimina a consciência, mas eu sei perfeitamente que não. Chamo-lhe consciência, reparem, e não alma, ainda que talvez todos me percebessem melhor se eu usasse esse termo gasto, essa entidade oriunda de uma espécie de outra dimensão, que ninguém entende, de facto, mas que a todos parece satisfazer, quando se trata de explicar fenómenos transcendentes ou para lá da vida. Mas entenderemos mesmo esta centelha que nos anima constantemente e nos leva a perceber-nos enquanto sujeitos, a perceber o ruído dos outros em torno de nós, da terra e da natureza, do real e do imaginário, tudo isso a que simplesmente chamamos consciência?

            Todas as explicações são deficientes. Produto neuronal, excreção do cérebro que segrega o pensamento, como o fígado segrega a bílis, milagre outorgado pela divindade ao ser predestinado como rei da criação…mas afinal onde localizamos fisicamente a consciência? Não a localizamos, especificamente, ela não é um órgão como o coração ou o estômago mas preside ao seu ordenamento e, quando eles deixam de funcionar, a consciência continua lá, coesa e muito mais eficaz, pois deixou em absoluto de depender da actividade mecânica e condicionada dos órgãos do corpo.

            Obviamente que a minha consciência não quis assistir ao desmoronamento do corpo, a que de certo modo pertenceu, durante 80 anos. A minha consciência rejeitou o cerimonial fúnebre e hipócrita a que submeteram o corpo ao qual emprestou algum sentido, durante um certo tempo, mas que se lhe tornou alheio naquele instante limite. Livre das amarras confinantes do organismo a minha consciência lançou-se em voos, acedeu a tempos e a vivências deixados suspensas pela condição específica do organismo que serviu. A minha consciência está viva, habita um tempo e um espaço, o mesmo de que era presa enquanto o organismo a amarrava; mas, em simultâneo, tornou-se capaz de romper os limites, e ora vai, ora vem, em viagens assombrosas, simultaneamente mentais e corpóreas, preenchendo lacunas, encontrando companheiros, criando universos e transcendendo-se continuamente. Tornou-se divertido olhar à minha volta e imaginar quantas daquelas pessoas estariam mortas, sem disso suspeitarem e, aos poucos, consegui mesmo estabelecer a diferença entre os vivos-vivos e os vivos-mortos, entre os que entendiam a excepcionalidade da tomada de consciência, após a desagregação fisiológica, e os outros ainda mergulhados em duplicidade e angústia. Não narrávamos uns aos outros o que sabíamos, era uma espécie de pacto, aquele que tacitamente travávamos, mal nos reconhecíamos. E assim conquistei a minha eternidade, sabendo que aquela era a única salvação da espécie humana  mas que ninguém o tinha ainda descoberto e que, por isso, era cedo demais para fazer revelações e pôr a ciência em acção. Mas o estado a que ia chegando a sociedade dos homens, esses que ainda eram vivos e levavam existências anódinas e repugnantes, como foi a minha antes dos 80 anos e da festa do meu aniversário, revelava sinais tão alarmantes de fim de tempo que eu sabia estar próxima a hora da revelação ao mundo da minha experiência, afinal partilhada por uma elite, como em tempos profetizou o filósofo do eterno retorno.

            De Portugal trouxe uma réstia de saudosismo e, sempre que vejo chegar Setembro e o Vesúvio parece crescer sobre a Baía de Nápoles, ataca-me a nostalgia intensa do meu companheiro de viagem e suspiro, desvairada, durante uns dias, pela figura morena de olhos amendoados que dá pelo nome de Luís de Múrcia e me ensinou os segredos de mim mesma.

           As primeiras chuvas, porém, devolvem-me a serenidade por inteiro.

           

           

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